quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

VAI VENDO...

Essas conversas de bar nos rendem sempre ótimas histórias. Hoje tomei cerveja com dois amigos aqui em Boa Vista. Um deles, dono de um jornal e o outro, um puta ator e produtor teatral. Esse cara dono de jornal parece a versão de Bukowsky da Amazônia. Imagina, só faltava o cara ser escritor. Se bem que ele trabalha com publicidade e escreve coisas ótimas. Conversamos sobre nossas escolhas profissionais. É muito bom trabalhar em horários alternados, sabe, não ter hora certinha pra trabalhar. Eu não cumpro esse horário da sociedade. Não trabalho de 8h. às 18h., entendem? Trabalho a qualquer hora do dia. Vou trabalhar no fim de semana. Trabalho de madrugada no computador. Trabalho sábado, domingo e feriado, mas posso me dar ao luxo de em plena quinta, à tarde, de dar uma pausa e tomar cerveja com os amigos. Isso que tenho em Boa Vista não tem preço. Nós estamos ganhando dinheiro com teatro. Acho engraçado quando sou apresentado em festas e as pessoas me perguntam o que faço, sabem, aquelas rodas de advogados, funcionários públicos, assistentes sociais, psicólogos, enfim, quando digo que vivo de teatro, dá até pra escutar os pensamentos das pessoas. O corpo fala também. Eles acham que sou um equivocado. E o engraçado é que vivo melhor do que muitos deles. Fazer o que? Nem meus pais acreditam que vivo de teatro em Boa Vista! É mole? Não é não, é a realidade. Mas já passei da época de tentar convencer os outros disso. Vou vivendo e trabalhando pra caralho e deixem que pensem que tô na merda, sem rumo e sem direção. Eles não tem nem idéia do quanto eu sou feliz assim. É, fazer pecinha dá rock sim. Como diz o Marcelo D2, Vai Vendo...






TAMO AÍ NA ATIVIDADE

Já falei um pouco disto por aqui, mas resolvi colocar mais detalhes. Este post eu tirei lá do site da Cia. do Lavrado. O ano começou pra valer e temos muito o que fazer. E vocês, quando é que vão dar o ar da graça nos nossos espétáculos?


A Cia. do Lavrado iniciou 2009 com a elaboração/adaptação do texto de Aristófanes, Lisístrata, que iremos estreiar em Abril(previsão). A adaptação foi feita por Graziela Camilo e Marcelo Perez. Estamnos correndo atrás da autorização do tradutor. Já estamos em processo de ensaios, daqui a pouco estaremos ensaiando nas ruas. Isso mesmo, teatro de rua precisa ser ensaiado nas ruas.
Em seguida participamos de uma capacitação em Teatro de Bonecos, com a bonequeira Ananda Machado, muito fera mesmo, mestre em artes cênicas, formada lá na Universidade do estado do Rio de Janeiro, pessoa espetacular que dividiu alguns de seus conhecimentos conosco. A idéia é montarmos no segundo semestre de 2009 um espetáculo infantil com teatro de bonecos. E a Ananda já disse que vem morar em Boa Vista em Fevereiro. Tô até vendo...
Na área de DST/Aids, a Cia. do Lavrado está realizando oficinas de capacitação pelo interior do estado. A idéia é sensibilizar os profissionais da área da saúde a trabalharem com teatro de bonecos na sua abordagem na comunidade. Já estamos multiplicando. Fizemos os municípios de Iracema e Mucajaí. Amanhã iremos pro Cantá. Na outra semana pro Bonfim, fronteira com a Guiana Inglesa e pra encerrar, Pacaraima, fronteira com a Venezuela. Este projeto é pela Secretaria de Saúde do estado, pela Coordenação de DST/AIds.
Ainda na área da saúde, estamos fechando com o Grupo Reverbel, de São João da Baliza, pra dividirmos os nossos conhecimentos em Teatro do Oprimido com eles. Lógico que nós sabemos que estamos longe ainda de realizar o teatro do Oprimido como é feito no Rio de Janeiro, mas alguma coisa nós temos pra dividir. E lógico, aprender muito com a moçada lá de Baliza.
Em Abril iremos remontar A Farsa do Advogado Pathelin, espetáculo montado com recursos do Prêmio da FUNARTE e que em 2006 só fizemos 10 apresentações. Vamos cair na estrada com este espetáculo também.
No meio disso tudo, iremos reestreiar Homens, Santos e Desertores, de Mário Bortolotto, que o Mário já autorizou, renovou na boa conosco e montaremos o texto Apenas um Blues e uma Parede Pichada, de marcelo Perez, prêmio também da FUNARTE em 2008. Foi um dos dois projetos aprovados na Região Norte, no Prêmio Bolsa de Estímulo à Criação.
Em Julho viajaremos pra Porto Velho, pra particparmos do II Festival de Teatro de Rua Amazônia Encena na Rua. Levaremois os quatro espetáculos. Dois pro festival e dois o nosso amigo Chicão, lá de Porto Velho, vai nos produzir por lá. Falando em viagem, temos planos de sair do país, ainda em 2009. Se tudo der certo, quem sabe iremos pra Argentina e pra África. Quem viver verá!
Bom, diante deste quadro, vamos nos comprometer com vocês de manter este site atualizado. Vamos fabricar muitas informações e precisamos dividí-las com vocês.
Apareçam nos espetáculos da Cia. do Lavrado em 2009 e nos espetáculos da FETEARR - Federação de Teatro de Roraima também. Vamos fortalecer o teatro em Roraima. Estamos fazendo a nossa parte. Façam a de vocês. Apareçam!

Marcelo Perez









quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

ÀS VEZES A VIDA É ISSO MESMO

Fui almoçar e resolvi tomar uma cerveja. Fiquei debaixo da árvore, à mesa, tomando uma Skol bem gelada. Às vezes a vida é isso. Percebi que as pessoas ficavam me olhando, sei lá, será que era por causa da cerveja em plena quarta? Mas quem disse que tem dia pra beber. O foda é que eu me conheço e sei muito bem que se bobear fico ali, sentado, enchendo a cara até a hora do ensaio, logo mais. Aí tá justificado o olhar do povo, certo? Mas me levantei e saí do bar rapidamente. Fui pra casa. Seguro. E continuei no Red Label que eu não sou bobo nem nada...Fazer o que? Às vezes a vida é isso mesmo. Vou levando...











segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

AGORA É SÓ PRA FRENTE

Essa semana realizamos oficina em Mucajaí. Os ACS's de lá capricharam na confecção dos bonecos. Ficaram ótimos. Até agora não podemos reclamar nem de Mucajaí e nem de Iracema. Todos se esforçaram pra concluir a construção dos bonecos. As cenas ficaram ótimas. Muitas questões importantes foram abordadas, sempre com a temática DST/HIV/Aids. A idéia da oficina é sensibiizar o profissional da área de saúde, para que o mesmo diversifique a sua abordagem. Foi mais uma oportunidade que eles tiveram. E quanto a nós, olha, nós estamos diversificando. O trabalho com teatro de bonecos é mais uma frente de trabalho que resolvemos explorar. Explorar no sentido de pesquisa, mas como quem faz pesquisa é universidade, na verdade nós resolvemos nos apropriar desta linguagem e acrescentá-la ao arsenal de comunicação da Cia. do Lavrado.
No segundo semestre deste ano vamos iniciar uma produção infantil, com bonecos. Nem sei ainda como será. Sempre tive medo de teatro infantil. Receio de errar a mão e tratar a criança como debilóide. Poucos grupos que vi mandarem bem neste segmento. Existem muitas tentativas, mas as pessoas não querem estudar. É preciso levantar dados, questões a serem respondidas no processo de ensaio. A criança é o nosso mais novo adulto. Vamos ver o que sairá, mas me anima muito a idéia de abrir esta nova frente de trabalho na Cia. do Lavrado. Penso que como companhia de teatro não podemos nos engessar. Ficar sempre com a mesma linguagem enferruja. E teatro enferrujado não apresenta nem um pouquinho de ousadia. Não acontece. Fica na forma. Não promove transformação pros atores. Principalmente aqui, que 90% dos artistas de teatro pouco assistiram teatro nas suas vidas.
Começamos o ano bem pra caralho. Já fizemos uma capacitação em teatro de bonecos, já fizemos duas viagens pro interior pra capacitarmos os profisionais da área de saúde dos municípios, nesta quarta começa o ensaio de LISÍSTRATA, texto do comediógrafo Aristófanes, da Antiguidade Clássica. Fala da greve de sexo das mulheres de Atenas, que deixam os homens sem trepar e só voltam a trepar com eles se as guerras acabarem. Vai ser a maior maluquice. Tô até vendo...Se A RETRETE OU A LATRINA o povo pegou pesado, se eles não amadureceram ainda, vão detonar a gente. Vamos falar de sexo em praça pública, mas sempre de forma grotesca, esculachada e sem dúvida nenhuma muito divertida. É parceiro, o ano já começou faz tempo na Cia. do Lavrado. Não temos nem tempo de olhar pra trás.








quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

QUE SEJA FEITA A VOSSA VONTADE


voltamos à estaca zero, sem solução
nossos tropeços nos levam sempre de volta
por mais que tente dizer não
o sim é fatal
então...

vamos morrer assim, sem nenhum prazer?
que seja feita a vossa vontade
assim na terra
na cama
em pé
com os olhos fechados
mordidos
molhados
sem chance pra olhar atrás
pra trás!






ROBSON MORENO

Recebi uma mensagem outro dia de um amigo lá do Rio. Comecei a fazer teatro com ele em 1990, no Grupo Gang da Cidade. Aquele povo era muito doido. Enfrentamos muitos sinais pedindo dinheiro para montarmos nossos espetáculos. Isso mesmo, teve uma época que era costume no Rio de Janeiro os atores realizarem pedágios pela cidade. Dava uma boa grana e conseguíamos o suficiente para levantarmos uma produção sem nenhum luxo. Fazíamos como um cortejo. Chegávamos no local combinado, fazendo barulho, todos com figurinos, perucas e encarando os motoristas de frente. Era divertido. O Robson Moreno ainda andou muito comigo pela cidade atrás de textos para montramos. Uma vez tentamos montar A Onça e o Bode, um texto infantil clássico, mas nunca conseguíamos a liberação do texto, pois muita gente montava. Resolvemos então fazermos uma adaptação não liberada. Se não me falha a memória não montamos o texto. Tínhamos um grupo chamado MENOSPAUSA CULTURAL, escroto, não é? Não gostávamos da idéia de não fazer teatro. O grupo morreu. Morreu também uma amigaça nossa em um acidente de carro em Minas Gerais. Voltávamos de Minas Gerais, essas viagens que são decididas na mesa do bar e quando percebemos estamos na estrada. Infelizmente na volta a nossa amiga Simone faleceu. Eu tava dirigindo. Capotamos umas 10 vezes. Foi uma barra na época. Tô falando disso porque não consigo lembrar do Robson e de outros amigos daquela época sem lembrar da Simone. Formávamos um time. Acho que ele tá fazendo teatro no Rio. Espero que sim, pois o cara é muito bom. Admiro muito esse figuraça. Muito do bem.
Essa história de viajar de repente é muito legal. Uma vez estávamos na esquina. Um amigo nosso tava lendo jornal e viu que iria rolar uma corrida de motocross no interior de São Paulo. Não pensamos duas vezes. Pegamos umas roupas e entramos no ônibus para a rodoviária. Uns seis caras inconsequentes e completamente enbriagados. Fizemos baldiação até chegarmos na cidade da corrida. O pior de tudo é que não tínhamos dinheiro para a entrada e conseguimos assistir ao evento só na conversa. Eu e mais dois caras entramos junto com o carregamento de bebidas. Apanhamos as caixas que os caras estavam colocando pra dentro e cada um entrou com uma. O porteiro engoliu legal. Teve gente que entrou pelo morro. Escalou e saiu na área da corrida. Foi demais.
Hoje eu continuo viajando. A maioria das vezes é trabalho, mas ainda bem que me divirto muito no meu trabalho. E ainda ganho dinheiro assim. Não tô mais nos sinais. Mas se precisar, coloco a peruca, figurino e peço mesmo. Se esse for o preço pra que eu possa continuar fazendo o que faço, que seja. Estou muito feliz com a minha profissão. É a maior viagem...








MISTUREBA

OFICINA DE IRACEMA - 13/01
FOTO: RENILDO ARAÚJO


Finalmente a internet me deu uma colher de chá. Quase duas semanas sem conseguir conectar da minha casa e eu não gosto nem um pouco de ir em Lan. Nesse período aconteceu muita coisa. Só pra deixar registrado, a Cia. do Lavrado realizou uma oficina de capacitação em Teatro de Bonecos. Foi assim, tem uma bonequeira que mora no Rio de Janeiro e que tem um irmão morando aqui. Ela fez contato comigo através da internet e me disse que iria visitar o irmão em Janeiro. Falei do nosso interesse por teatro de bonecos e ela topou trocar experiência conosco. Foram dois dias de muita criatividade. A Ananda Machado foi muito atenciosa e nos deixou livre pra criarmos os bonecos do nosso jeito.



As coisas tem acontecido assim com a Cia. do Lavrado, ano passado pensamos na possibilidade de produzirmos um espetáculo infantil e fechamos que seria legal se fosse um espetáculo com bonecos. O Renatão deu essa idéia. Estamos executando um projeto de prevenção às DST/Aids com teatro de bonecos. Hoje mesmo cheguei do município de Iracema. Capacitamos os profissionais da área de saúde nessa linguagem. Lógico que não somos fera nesse assunto, mas o pouco que sabemos foi possível dividir com eles. Esse é um projeto em parceria com a Coordenação Estadual de DST/Aids do estado de Roraima. Vamos visitar ainda os municípios de Mucajaí, Cantá, Bonfim e Pacaraima.



Então, talvez a Ananda venha morar em Boa Vista e quem sabe irá engrossar a Cia. do Lavrado. Acho muito legal a disposição dos integrantes da Cia. Estamos sempre tentando fazer algo diferente, sempre tentando nos superar. A Turma do Tamanduá é foda! Foda no sentido de perseverar, de não desistir, de insistir. Gostamos muito do que fazemos e fazemos com tesão. Sabemos do que somos capazes. Ou pensamos que sabemos... Não podemos e nem queremos engessar nosso teatro. Vamos sim trabalhar com o público infantil e com bonecos. Estamos ansiosos por isso. Voltando de Iracema, comentei com o Renildo que nós estamos cada vez mais ampliando o nosso raio de ação. Trabalhamos com o palco italiano, fazemos teatro de rua, prevenção às DST/Aids com o uso da metodologia do Teatro do Oprimido, teatro de bonecos na prevenção e agora vamos cair dentro desse universo infantil. Confesso que não é muito a minha praia, mas tô motivado. Por isso nós andamos convidando algumas pessoas pra integrarem a Cia. do Lavrado. Temos muita coisa pra fazer em 2009 e vamos precisar de mais atores, quer dizer, atrizes, pois tem muito macho nesse tal de Lavrado. Três amigas que convidamos se mostraram super animadas, mas sabe como é, até hoje não apareceram em nenhuma reunião nossa. Teve uma outra pessoa interessante, que infelizmente não teve nem a gentileza de nos responder e dizer o seu não. Apenas nos ignorou. São coisas esquisitas...Reconheço que não somos muito simpáticos para os outros grupos de teatro de Boa Vista. Essa é a minha impressão apenas, as pessoas não se aproximam muito da gente. Por mais que a Cia. do Lavrado tente, ela não consegue. Fazer o quê? As pessoas estão certas em selecionar suas amizades. E talvez o universo da fofoca não seria o mesmo se mudassem o Judas da roda.



Enfim, misturei bastante os assuntos. Isso é a abstinência da internet. Tenho muita coisa pra escrever, mas também não sou bobo e andei rabiscando no caderno. Depois vou postando por aqui.



É isso. Sexta - feira vou pra Mucajaí realizar a segunda etapa do projeto de prevenção. Fico até sábado. E por aqui a Turma do Tamanduá não pára.






















sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

TÔ DE VOLTA E REVIGORADO


Estou de volta. Ficar longe de casa por muito tempo não é muito legal. Não sei se tô ficando velho, mas não curto mais isso. Sei lá, passei uns quatro dias na Venezuela, mas tava louco pra voltar. Foram dias ótimos, até terapia com argila eu curti. Tô realmente revigorado. Nem pensei em trabalho. Nem levei celular. Não tinha internet, tv e até a energia só ficava ligada por poucas horas. Não me preocupei em saber as horas. Estive em muitos lugares lindos, muito contato com a água, rio, cachoeiras, quedas. Muita estrada também. Sei que Santa Helena é cidade de fronteira, mas o local que fiquei era bonito. É, porque Santa Helena é feia pra caralho. Bom, sei que consegui recarregar a bateria legal. Já voltei na estrada pra Boa Vista pensando em trabalho. De como vou criar isso, dirigir aquilo...pensei muito em como será o primeiro semestre da Cia. do Lavrado. É isso. Para um ano de 2008 maravilhoso, eu só podia começar 2009 melhor ainda.












sábado, 20 de dezembro de 2008

MARISA E WELITON

Filho coloca um rock. Arruma a sua cama. Ajeita as bagunças do seu quarto. Tenta deixar o ambiente agradável. Acende um incenso. Examina cada canto. Ouve batidas na porta. Abre. É a sua mãe. Deixa – a entrar.


MÃE – (invade o quarto) Não tenho muito tempo. Termina logo com esse mistério.
FILHO – (aponta a cama) Senta aqui, mãe.
MÃE – (olha ao redor) Nossa, vou pegar a filmadora pra registrar isso aqui. Nunca vi esse quarto tão arrumado e cheiroso. Realmente tá com cara de quarto.
FILHO – Eu só mexi numas coisas.
MÃE – Olha, você não sabe o quanto eu queria que você mexesse em algumas coisas de vez em quando.
FILHO – Tá legal, mas senta aqui, mãe.
MÃE – É sério, você já tá com 22 anos, devia se acostumar a manter seu quarto assim. Sabia que o jeito que cuidamos de nosso quarto demonstra a forma como encaramos a nossa vida? Já perdi as contas de quanto eu já repeti isso pra você.
FILHO – Dá um tempo, mãe, eu que te chamei pra conversar. Abandona um pouco os seus interesses e me ouve.
MÃE – Tá bom, mas vê se não demora que eu tô esperando visita.
FILHO - Papai não chega hoje?
MÃE – Não, ligou agora a pouco avisando que perdeu o vôo e vai ficar mais um dia em Manaus.
FILHO – Agora eu entendi a sua pressa...
MÃE – Vai me recriminar agora, é? Você tá careca de saber que ele não perdeu vôo nenhum. Vai é ficar com aquela vadia... (recalcada) e HO - iminar.
ca pra um moleque com a cara do teu pai te chamo de irm se vade. nrsque se diz atriz! Ela tá é arrancando o dinheiro do seu pai. Não demora muito, você vai tá atendendo a porta pra um moleque parasita te chamando de irmão. Aí eu quero ver você me recriminar.
FILHO – Se você fosse menos exigente, talvez papai não sentisse necessidade de buscar outros corpos lá fora.
MÃE – E o que tem de errado com esse corpinho aqui? Fique sabendo que eu tô dando banho em muita garotinha por aí. E vem cá, agora eu é que sou a culpada? Só me faltava essa. Vou te dizer uma coisa, o seu pai sempre foi assim, desde a época de namoro. Os homens são assim. Não convivem bem com a monogamia, sei lá, já faz parte deles, entende? Que culpa tenho eu de exigir mais atenção, mas olha, nada que seja demais, o suficiente pra eu me sentir importante e necessária uma vez na vida!
FILHO – Você às vezes sufoca.
MÃE – Pera aí, que discurso é esse? Então quer dizer que você concorda com a postura do seu pai?
FILHO – Não é isso, mãe...
MÃE – Não é isso o quê? Você aprova a atitude do seu pai sim, lógico, é um homem. Você pensa igual a ele. Mesmo com toda essa aparência liberal, você no fundo é conservador. E torce por ele.
FILHO – Que conservador, mãe, não é nada disso, eu só acho que as pessoas tem o direito de serem felizes, e que todos deveriam respeitar as decisões dos outros.
MÃE – Então respeite a minha. Ele sai e eu abro a porta pra felicidade. Mereço um pouco também. Mas como você mesmo disse, eu não vim aqui pra falar de mim. Desembucha logo, que assunto importante é esse que você tá a semana inteira me preparando?
FILHO – Calma, o papo tá bom. Sabia que a senhora pouco entra aqui.
MÃE – Mas não tem nenhuma novidade aqui, eu comprei tudo, a única coisa que me surpreendeu foi a arrumação. Parece até que passou uma empregada por aqui.
FILHO – Eu já tô afim de falar com a senhora faz tempo...
MÃE – Tá, mas não me vem com esse discurso de filho carente, que eu não apareço, você sabe, nós não te educamos assim.
FILHO – Fica quieta, mãe, deixa eu falar agora. Nossa, você fala muito!
MÃE – Tá bom, calma, eu sou toda ouvidos.
FILHO – Então, eu já tô com 22 anos, como a senhora mesma disse. Já sou responsável pelas minhas escolhas e...a senhora sabe, nem tudo que a gente escolhe ser, viver, experimentar, as pessoas lá fora aceitam, não é verdade?
MÃE – Você tá dizendo...
FILHO – Mas é mesmo. Veja o seu caso, por exemplo, a senhora tem um amante. A sociedade recrimina isso, mas a senhora não tá nem aí, quer dizer, tá. É, porque senão, não ficaria às escondidas.
MÃE – Tá...continua...
FILHO – Olha, mãe, não pense que eu sou contra a sua decisão. Eu posso não demonstrar, mas eu aceito a sua opção. Tá certa, é isso mesmo, tá infeliz? Então precisa mudar. Confesso que eu queria que você e o papai se dessem bem, mas fazer o quê? A vida nos apresenta cada surpresa, não é mesmo?
MÃE – Eu não faço isso por vingança. Eu sinto falta mesmo. Não de um rosto específico, seu pai foi uma surpresa na minha vida, como poderia ter sido com qualquer um. Eu não consigo é conviver com aquela sensação de não ser desejada. Toda mulher precisa disso. Os homens não entendem, não precisa nem de amor, isso é coisa de cinema, é invenção, nós sentimos falta mesmo é de sermos desejadas. Todas as mulheres só querem isso. Mas vocês não entendem...
FILHO – Entendo sim, mãe, eu também sou assim. Eu preciso ser desejado, eu preciso perceber que sou importante, sabe? Que a minha presença desestabiliza alguém completamente seguro de si. E eu queria falar contigo sobre isso. Sobre o que eu sinto há anos. Sobre o que eu não compreendo porque sinto, e que eu não me preocupo nem um pouco porque eu sinto isso. Eu já fiquei muito confuso, mas agora resolvi dar um basta a toda essa confusão.
MÃE – Pra isso me chamou aqui?
FILHO – Isso mesmo, eu não agüentava mais esconder isso da senhora. Não que eu esteja buscando aprovação, não sei, vai ver até que é, mas o que mais me tá claro é que eu preciso de um aliado dentro da minha casa. Eu não queria achar importante a opinião de alguém daqui, mas porra, eu acho, que merda! Seria tão mais fácil ligar o botão do foda-se e viver a vida do jeito que eu quisesse, mas não, essa bosta dessa necessidade de falar, de obter aprovação. Eu não queria ser assim, mãe, eu juro que eu queria não me importar pra o que você pensa sobre mim.
MÃE – São os laços que nos unem, eu também nunca gostei disso. Cansei de tomar atitudes contrárias aos meus valores só pra não contrariar os valores dos meus pais.
FILHO – É isso, assim mesmo que me sinto! Nossa que alívio. Ô, mãe, que bom que a senhora entende, eu pensei que fosse mais difícil, mas a senhora é cabeça mesmo. Obrigado.
MÃE – Tá legal...e então?
FILHO – Então o quê?
MÃE – Não foi pra isso que você me chamou até aqui, foi?
FILHO – (nervoso) Não, quer dizer, mas faz parte...é tudo uma coisa só...se a sua reação foi legal com essa parte teórica, tenho certeza que na prática se eu falar pra senhora que eu adoro meninos, pôxa, a senhora vai entender numa boa, não é mesmo?
(Pausa)
FILHO – A senhora quer um cigarro?
MÃE – Parei faz uma semana...
FILHO – Ei, e isso aqui? (apanha dentro do criado-mudo uma garrafinha de uísque)
MÃE – (arranca a garrafinha das mãos dele e dá logo uma golada) Acho uma boa hora.
FILHO – Olha, mãe, não precisa falar nada agora e nem nunca...fique à vontade pra ser você.
MÃE – Se eu fizer isso você não sai vivo deste quarto.
(Pausa)
MÃE – Acho que acabamos. (levanta-se para sair do quarto).
FILHO – (segura a mãe) Pera aí, mãe, não sai assim, vamos conversar...
MÃE – De que adianta, você me parece bem decidido, mas não me venha pedir que eu aceite isso, que você sabe muito bem que eu não aceito. Um filho viado, era só o que faltava na minha vida.
FILHO – Viado, não!
MÃE – Viadinho sim! Qual é?
FILHO – Eu nunca pensei que.. você fosse ter uma reação como essa, que decepção.
MÃE – Decepção? Vai te à merda! Meu filho diz que adora um macho e você é que se dá o direito de se decepcionar? Mas não mesmo.
FILHO – Você me enganou direitinho, toda liberal, amamentando um amante dentro da nossa casa, jogando pro alto o casamento na maior, nossa, quanta contradição.
MÃE – Olha, a minha vida não está em cheque aqui. Não fui eu que te procurei pra falar das minhas obsessões. O que eu faço ou o que eu deixo de fazer não te interessa. Vai pagar umas contas aqui de casa pra depois vir me dar espôrro.
FILHO – É mesmo é? Então agora é assim, me coloca no mundo sem me consultar e depois me sufoca com um monte de cobranças? Nada disso, mãe, esse peso a senhora vai ter que carregar comigo. Não foi a senhora mesma que disse que não escolhemos família? Então, essa barra eu não vou segurar sozinho. Percebeu?
MÃE – Não quero nem saber, isso é assunto pra teu pai. Se você fosse uma menina, na certa ele iria te empurrar pra cima de mim. Vai lá procurar aquele filho da puta, e aproveita e diz pra ele que eu não tô nem um pouco com saudade.
(Pausa)
FILHO – Vocês nunca pararam nem um instante pra me ouvir. Me lembro que as poucas vezes que experimentei a atenção de vocês, senti a ausência de suas almas. Vocês estavam ali, de corpo, mas o pensamento não conseguia abandonar suas necessidades. Vocês sempre foram muito egoístas, acredita que quando eu tinha meus 17 anos, cheguei a pensar que eu era filho adotado? Mãe, vocês nem perceberam que eu cresci, que eu sou alguém com vontades. Olha, embora eu queira tanto dividir isso contigo, e que essa dependência me deixa puto, tô preparado pra não te ouvir mais. Eu sei que a gente não vai mais falar nesse assunto, e que a senhora vai fingir que nada aconteceu. Não me importo em te ver brincando de realidade pela casa. Nisso somos iguais. Nem eu e nem a senhora somos pessoas de agüentarmos a convivência com um calo desgraçado apertando o nosso pé. Fingimos que ele não existe.
(Pausa. Mãe abre a porta).
MÃE – Vou preparar o teu lanche. Liga pra Flavinha vir lanchar contigo. Ela arrasta uma asa pro teu lado.
(Filho pega o fone de ouvido, coloca no seu rádio e se deita na cama. Mãe sai).







O QUE CRISTO TERIA DITO?



como é que a prática leva à perfeição se perfeição catolicamente falando é um desejo obssessivo inatingível?
o que Cristo teria dito?
vai pensando...








DEVAGAR TAMBÉM É PRESSA



não dá pra passar a vida toda contando as perdas
não posso me dar ao luxo de ostentar este tempo
o relógio marca outro horário
legitimado pela sociedade
mas em hipótese alguma tudo aquilo que cheire real







sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

JOGO RÁPIDO


Esse ano eu insisti muito com as pessoas sobre a importância que tem a ferramenta internet. Nos movimentos ela é essencial. E o Teatro é um movimento. Trabalhamos com cultura, não dá pra perdermos tempo. Não somos os tipos que usam cartas escritas à mão na sua comunicação com o que tá do outro lado. Isso a gente faz em cena. Fazer teatro é urgente. Um desejo urgente, quase fisiológico. Não posso pensar de outro jeito. Ou eu me conecto com o mundo o mais rápido possível, ou então eu vou fazer psicodrama medival em pleno 2009. Um realismo exagerado e completamente ultrapassado. Olha como a internet é foda de boa, eu nem preciso me alongar muito por aqui. Já escrevi o necessário, mais, seria muita pretensão da mina parte. Completamente ilustrativo. Demais.
Duplo sentido. Só isso.






2008 SE FOI...



Achei que tava acostumado com as supresas da vida. Mas me enganei. O pior que não sou marinheiro de primeira viagem. Por pior que fosse a minha situação, eu sempre alimentava obssessivamente a certeza da virada. Não se trata de questões filosóficas. É pura matemática. Se eu não atravessar a rua nunca passo pro outro lado. E é por aí. Não vou ficar de rodeios como faço todo fim de ano. Minha avaliação é a apreciação da minha liberdade.








quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

FIM DAS FICHAS




cada vez sem reação
é um soco no estômago
tudo isso sem o menor jeito pra entender
o esquisito é o inesperado
o acaso é programado
um instante sem noção
um grito
um pedido de socorro
incompreensão
um susto dentro de um monte de palavras desarrumadas
conferir a hora que acalmou dentro do peito
virar o copo até revelar o fundo
velar o desejo
castigar as vontades
esconder-se bem mais que meio-dia










terça-feira, 16 de dezembro de 2008

NO OLHO DO FURACÃO

eu escrevo o que eu não digo
o que eu não posso falar
porque não posso falar
eu rabisco os meus delitos
porque não posso berrar
não posso berrar mas escrevo sem parar
inquietantemente inquieto
sem nem pensar em enfeitar meu verso
sem parar sem berrar sem falar nem pensar
nem pensar em reprimir o pensamento
fortalecer
distante
no olho do furacão








O QUE NÃO FOI



o certo é que nada tá certo
o engano existe para nos desculpar
de tudo aquilo que não foi
e que nem tem tanto peso assim
o excesso de sofrimento pelo que não aconteceu
acabou por esconder uma derrapada que nunca aconteceu
e se aconteceu algo tão diferente e sem nexo algum
aconteceu
foda-se
vou viajar na realidade que nunca existiu
vou apostar as fichas na imagem que não chegou a ser construída
vou ficar à espreita
esperar o seu bote fatal








domingo, 14 de dezembro de 2008

QUE DIA É HOJE?

Esses dias esqueci o aniversário de meu pai.
Minha mãe me odiou.
Julgou toda uma vida em uma ridícula data.
Não é uma pessoa globalizada.
Dei um desconto.
O que mais me perturba nessa história
É a indiferença de meu pai cinco dias depois.
Aceitou as desculpas sem resmungar.
A dor sabe representar bem seu papel.








AO ACASO




por mais que se tente fingir os resultados da vida
nada se assemelha ao acaso
a surpresa de mais um dia
sem a menor noção do que irá acontecer
sempre o vácuo
o imenso buraco sem fim






UM SURTO



nos pés descalços e molhados de suor noturno
da sombra do abajur do lado
que é objeto e companhia
do solitário onanismo sem rosto
apenas mecanizado
um alívio na tempestade de desejos e tesões sem mágoas
um estalo bem dentro e bem forte
um espasmo descontrolado e sem nenhuma preocupação
mais um segundo se foi








OS RESTOS DO QUE NÃO EXISTIU

Nunca quis entrar em detalhes com os seus sentimentos, sempre ignorou a possibilidade de aproximação. Mas não podia imainar que as coisas fugissem ao controle. Acordou muito cedo para um domingo qualquer, preparou seu altar sagrado e acendeu 12 velas vermelhas. Não queria ter que fazer tudo novamente. Empurrou um café amargo e requentado. Beliscou um pedaço de pão. Agarrou sua garrafa. Só queria que o tempo passasse com mais dignidade. Refez toda a trajetória do pensamento equivocado e não sentiu culpa. A corda também pesa para o outro lado. Ficou tranquilo. A vida não o surpreendia mais. Ligou o computador na garagem. Escreveu sem parar. Riu sozinho da situação deturpada.