domingo, 10 de janeiro de 2010

O DESGASTE DO TEMPO NOS DENTES


Foi avisado pelo dente caído. O tempo acabara de determinar sua passagem. Encostou-se na cama, sem sono. Varou a madrugada contando os buracos do teto e todos os insetos. Não assumiu nenhuma culpa. Percebeu-se. Distanciou-se. O cansaço o invadiu na ideia do desgaste físico acelerado. Acabara de completar 35 anos. Era um cara antiquado para alguns. Não vivia em função da moda, e adorava seu velho jeans e suas camisas pretas surradas. Não tinha a certeza de nada e isso o deixava furioso. Pensava que aos 35, já deveria ter algumas respostas na manga. Não escolheu nenhuma das profissões-sonhos de seus pais. Não conseguia imaginar nenhuma condizente com a vida que levava. Não seguiu a tradição familiar. Era avesso aos cumprimentos nas datas de aniversário. Escolheu ficar ausente de todos. E de tudo. Mas não escondia o prazer da certeza de fazer parte. Mesmo sem desejar demais. Foi ao banheiro e escovou seus dentes com uma calma jamais alcançada. Ajeitou o travesseiro tranquilamente e dormiu um sono sossegado. Sabia que o tempo não determinaria outra passagem tão cedo. Pensou no dentista e na sua máquina irritante de obturação. Relaxou. Nada poderia ser mais grave do que toda a sua indignação com o TUDO.





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DOMINGO




não fez muita questão de escovar os dentes
estava com o pau ardido de tanto trepar
fez um cigarro com os restos das guimbas do ontem
mijou no quintal e agradeceu aos céus pela vida que passava
não tinha muito o que festejar
feliz e sem convicções
sem nenhuma surpresa recente
nenhuma novidade espetacular
deitou-se no chão e esperou os fiéis cães
acariciou-os
sentiu o doce beijo sincero de suas lambidas
a vida nem era tão ruim assim




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RUSSO BARATO




quando não me sinto por perto
caio em contradições sem um fim
despenco ladeira direto
são muitos de fora, dimim!





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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

GARGANTA IRADA


(A cena acontece em um pequeno apartamento, de quarto, sala, cozinha e banheiro, todos integrados. Felipe entra em casa. Sônia está sentada à frente do computador, na sala. Eles são jornalistas. Ela é tenta ser uma escritora nas horas vagas. Ele é um desenhista. Ela faz uma revisão em seu romance. Ele vai à cozinha, abre a geladeira e pega uma garrafa de água).

Felipe – Calor filho da puta! (bebe a água) Esse ventilador de merda não contribui em nada, já cansei de dizer que a gente precisa de uma central. (bebe mais água) Quer saber? Nós vamos é queimar nesse inferno!
(Pausa)
Felipe – (apanha uma laranja e começa a descascá-la) Como é que você consegue se concentrar com esse calor? Quando o tempo tá assim eu não consigo acertar um traço. Tomo uns dez banhos pra conseguir finalizar algum desenho. Tô até imaginando como deve tá esse livro...
Sônia – Continua desempregado...
Felipe – O quê?
Sônia – Eu disse que você continua desempregado, por isso que tá assim azedo. A entrevista deve ter sido uma bosta. De novo.
Felipe – Foi sim. A mesma chatice de sempre. Uma entrevistadora deliciosa, com um puta de um rabo imenso e que pernocas lisas, super provocante, colocada na posição ideal pra distrair desenhistas e autores tarados como eu. Um pessoal descoladinho na editora, cheios de explicações enfurnadas num monte de mentiras teóricas, tudo daquele jeito pra afastar profissionais como eu. Como sempre os meus desenhos não se enquadram no mercado atual. Que se dane o mercado! Esses editores são umas cobras. Eles pensam que eu não sei que são eles que criam o mercado. Na maioria das vezes o povo lê o que eles querem. Investem tubos de dinheiro em livros que não contribuem em nada com a nossa cultura e depois dizem que estão com a corda no pescoço, aliás, nunca vi um editor dizer que não tá com a corda no pescoço. Eles deviam é ler os livros de auto-ajuda que eles mesmos publicam.
Sônia – Você tá corretíssimo. Eles não querem mesmo vender você. Pelo menos, não esse Felipe.
Felipe – Como é que é?
Sônia - Felipe, o lance agora é mangá, entendeu? Esses seus traços são bacanas, olha, você sabe que ninguém mais do que eu adoro seu trabalho. Porra, cara, sou sua fã de carteirinha, mas... cai na real, o que tu faz hoje, não vende. E esses caras só pensam em números.
Felipe – São frios. Uns matemáticos filhos da puta, isso sim. Como é que eles conseguem convencer tanta gente? (mostra seu book) Olha aqui, ó, aqui tem alta temperatura. As páginas queimam, tá ligada? Foda-se esses traços de mangá. Umas merdas de uns japoneses que eles nos empurraram pela goela. Filhotes da tv aberta. Isso é o que são. Se não fossem esses programas de tv, esses desenhos não teriam tanta banca assim.
Sônia – E daí, cara, tu acha que o Walt Disney se deu bem porquê?
Felipe – Não fala besteira...
Sônia – É mesmo. Se não fossem esses programinhas merdas...
Felipe – Desculpa te cortar, mas tá falando bobagem. Muito antes desses programinhas passarem os desenhos do Disney, o cinema já apresentava a sua obra. E pro mundo todo. Porra, você há de convir que é uma apresentação muito mais nobre. Cinema! Show da Xuxa é sacanagem...
Sônia – Tá legal, mas nada disso vai resolver o teu problema, vai? Tá desempregado. Os caras não querem saber dos seus desenhos. Muda, Lipe. Não se deixa virar uma vítima desses putos.
Felipe – Aceitar o jogo é assumir o papel de vítima, isso sim. Deixa quieto. Vou dar meu jeito. Como sempre fiz.
Sônia – Tomara que esteja certo. E que ainda tenha tempo pra... sei lá, fazer com que o seu jeito funcione. Tu é um sonhador!
Felipe – Isso mesmo, um idealista.
Sônia – Na sociedade moderna não existe mais espaço pra idealismos. Ninguém tá com vontade de defender porra nenhuma. Cada um de olho no seu buraco. As pessoas só se juntam pra usar umas as outras. Idealismo...
Felipe – Por isso que estamos assim, entulhados de merda até o pescoço.
Sônia – E de terra...
Felipe - O mundo tá derretendo aos poucos, tragédias naturais invadem as nossas casas, chamam a nossa atenção pra antecipação do fim e o que o povo faz? Nada! Todo mundo chora na hora do Jornal Nacional, e depois secam as lágrimas à beira das fogueiras de lixo no fundo dos quintais.
Sônia – Você precisa se enquadrar, Lipe, nem tanto ao céu e nem tanto ao inferno.
Felipe – Prefiro o inferno das tentativas impossíveis, do que o céu da acomodação dos dias iguais. Eu fico com o meu idealismo. Ainda acredito em algumas verdades, Sônia, mesmo que tolas, mas prefiro apostar no que eu acredito.
(Felipe abre um pacote de batatas chips, uma lata de refrigerante e uma lata de Nescau. Acende um cigarro e deixa – o no cinzeiro. Liga o som. Senta no sofá).
Sônia – Hiii, já vi tudo. Mais dois dias entrevado nesse sofá. Cara, reage!
(silêncio)
Sônia – Tá legal. Não vou alimentar tua paranóia...
Felipe – Já te disse. Deixa quieto.
(Pausa)
Felipe – Eu também sempre fui seu fã de carteirinha...
Sônia – O quê?
Felipe – Eu tô dizendo que eu também sempre fui seu fã de carteirinha.
Sônia – Fui?
Felipe – Isso mesmo. Não faz nem dez minutos que eu não sou mais.
Sônia – (Negritori) Qual é a tua? Não tô entendendo.
Felipe – É que eu não sabia que você era do tipo que fazia concessões.
Sônia – Ainda não tô entendendo.
Felipe – Porra, Sônia, o que é que não tá claro? Esse seu livro aí deve tá cheio de censura. Cheio de concessões.
Sônia – Ah, então é isso?
Felipe – Me diz então que eu não tô certo? Já faz mais de duas semanas que você revisa essa merda. No mínimo tá moldando pra esses babacas da tua editora.
Sônia – Tô sim, Felipe, e se eu não fizer isso os caras não publicam. Consequentemente, eu não me visto, eu não como, eu não me lo-co-mo-vo. Sacou? E além do mais, o que eles pedem pra alterar não é nada demais assim.
Felipe – Nada demais? Então quer dizer que você tem uma puta de uma ideia, du caralho mesmo, demora um tempão matutando essa porra nessa cabeça desmiolada, leva mais não sei quanto tempo até tomar coragem de vomitá-la nos teclados do teu computador, sem contar o drama da página em branco e na hora de publicar você resolve fazer umas mudancinhas e ainda me diz com a maior cara lavada que não é nada demais? Vou te dizer uma coisa, daqui a pouco tu vai me dizer que livro de auto-ajuda é o maior barato! Parei contigo.
Sônia – Nem tanto, né.
Felipe – Não duvido de mais nada. Olha, experimenta bater de frente com esses capitalistas nojentos. Persiste nas suas ideias. Não deixa que eles escrevam esse livro com você. É assim que vou me sentir se eu começar a fazer essas mangás. Entendeu agora? Quando eu olho pra esses traços aqui, (mostra o book) eu tenho certeza de que fui eu quem os fez. Sozinho. Sem imposições. Mas se eu começar a apelar pros japoneses...você não entende....
Sônia – Entendo sim. Somos pessoas diferentes. Temos necessidades diferentes. Olha pra você. Faz uns bicos pelas redações da cidade. É bom pra caralho no que faz, mas não consegue, quer dizer, não quer ficar preso a nenhum jornal ou revista. Cara, olha pra tuas roupas. Se eu te recebesse pra uma entrevista de emprego, com certeza também não te contrataria. Parece até que saiu do túnel do tempo. Pura década de 80! Você anda largado demais, Lipe. Quem já te conhece e não liga pra essa tua estampa, você não tá afim, não é mesmo? E seu eu for falar das contas... nos últimos meses fui eu quem chegou junto. Aquele meu empreguinho de merda, como você sempre diz, jornalista de madame, ele sim é que tá segurando a nossa onda.
Felipe – Legal. Joga na cara essa porra toda. Vocês, capitalistas, têm a mania de encerrar suas discussões com cifrões enfiados no nosso rabo. Ei, quer que eu vá embora? É, porque se tá incomodada com tudo isso, eu vou. Numa boa.
Sônia – Não é nada disso, paranóico. A gente já mora junto desde a época da facul. Eu resolvi seguir a profissão e nas horas vagas tentar meu sonho de ser escritora. Você não. Você decidiu seguir o outro caminho, desenha todos os dias e nas horas vagas arruma algum como jornalista. Fazer o quê? De qualquer forma, nós estamos nessa juntos. Não liga muito pra essas coisas que eu falo. Olha, eu tô preocupada com o meu prazo que tá se esgotando. Preciso terminar essa revisão até a semana que vem, e enquanto eu não der o original pra editora, eles não me pagam o restante. E ainda tenho que escrever a matéria sobre filtro solar pra cachorros. (ele ri) É, meu amigo, vida de jornalista de madame, como você bem disse. Essa eu preciso entregar na segunda, sem falta. De outro jeito, tô demitida. Tá tudo muito complicado, Lipe, e eu não tô nenhuma vontade de prolongar essa discussão. Vamos fazer o seguinte, vamos pedir uma pizza?








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APENAS UM BLUES E UMA PAREDE PICHADA

(Duas jovens de classe baixa no cemitério. Free sonha em ser uma artista das tintas e Black uma cantora de Blues. Elas resolveram botar um ponto final em suas histórias)

FREE – Do que você acha que eles morreram?
BLACK – (tira a poeira da lápide do túmulo que está sentada) Essa aqui é... Elizabeth Avelar... nome de gente rica... Deve ter sido uma dessas mesquinhas que não conheceu muito entre o salão de beleza e a clínica de cirurgia plástica. (elas riem bastante). Não, é sério, pobre não coloca o nome da filha de Elizabeth. É sempre a porra da Maria. Maria e seus complementos. Acredita que a minha tia, que se chama Maria do Socorro colocou o nome da filha de Maria da Consolação? Cara, foi uma tremenda sacanagem com a minha prima, Socorro...Consolação...é tudo muito piedoso.
FREE – Eu não sei não, pra mim, pobre é que tem mania de colocar nomes estrangeiros em seus filhos. É influência do cinema, do capitalismo, de toda essa porcaria que enfiam na nossa cabeça e nos convencem aos poucos de que tudo que vem de fora é melhor do que o nacional.
BLACK - É, então estamos diante de uma exceção, porque essa Elizabeth aqui devia ter muita grana.
FREE – Como é que você sabe?
BLACK – Olha o formato das letras, Free. Você anda muito desatenta com os detalhes. Estão inclinadas, foram feitas à mão. Deve ter sido encomenda. Isso é trabalho de artista. Em lápide de pobre as letras são retas e frias. Normais demais. Assim como suas vidas.
FREE – Não tinha pensado nisso. Olha o tamanho do túmulo. O cadáver deve tá bem a vontade aí dentro. Pobre faz na medida certa (riem). Mas eu ainda tenho as minhas dúvidas quanto a classe social da nossa amiga Beth. Pobre adora esses estrangeirismos, William, Fred, Stefanny, se dermos uma boa vasculhada vamos perceber que a maioria dos nomes estrangeiros pertencem às classes mais baixas. (Pausa) Se bem que, qual família rica enterraria seu ente querido num cemitério da periferia?
BLACK – Aquela que sempre quis distância dele em vida.
FREE – Deve ter sido suicídio. Por isso enterraram ela bem longe, a família deve ter morrido junto de tanta vergonha. Suicídio, Black...
BLACK – Deixa de besteira! Combinamos que não iríamos falar sobre isso, pelo menos não desse jeito.
FREE – Nós não seremos enterradas aqui, Black. Vão nos transferir pro outro lado da cidade.
(pausa)





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MAGOO

Magoo era um cara esquisito. costumava acordar as seis da matina. todos os dias. mas só levantava as oito. reprogramava o seu despertador várias vezes. dizia que se sentia bem assim. acordava mais descansado. numa sexta-feira qualquer resolveu que não iria trabalhar. desligou o despertador. ficou deitado. acordado. contando os mosquitos do teto. pensou que poderia ficar o dia inteiro ali, afinal, eram muitos mosquitos e além deles, ainda havia uma infinidade de moscas no teto de seu quarto. ouviu o telefone tocar. desligou-se do barulho. o telefone voltou a tocar. colocou o travesseiro na cara e adormeceu. acordou com o telefone a insistir.
- alô?
- Magoo?
- quem deseja?
- eu quero falar com o Magoo...
- ele não se encontra, meu amigo, na verdade ele tá deitado e me pediu pra não incomodá-lo.
- é que estão precisando dele lá na prefeitura, tem uma oficina pra ela ministrar.
- sei... e pagam quanto?
- olha, o Prefeito disse que uma mão lava a outra.
- entendi. diz pro Prefeito que a mão do Magoo tá limpa.
desliga. volta pra cama. assim que ele deita, o telefone volta a tocar.
- Alô?
- o Magoo, por favor?
- quem deseja?
- é da parte do Departamento de Cultura do Estado...
- sei...e aí?
- o pessoal aqui tá precisando dele, eles querem que ele faça uma pecinha de Natal e dizem que só ele pode realizar.
- sei...e pagam quanto?
- olha, o pessoal aqui mandou dizer que vai ser bom pro Maggo, pois vão divulgar o nome dele em toda a cidade...
- diz pro teu pessoal que o Magoo não tá afim de publicidade.
desliga. volta pra cama. deita-se. o telefone toca. ele liga a tv e coloca na estação de rádio. aumenta o blues sorteado. empurra, com os pés a porta do quarto. apaga em seus sonhos infinitos.



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HISTÓRIAS DE PESCADOR


- que nada, hoje eu consigo fisgar um maldito.

- bom, todos os dias você diz a mesma coisa e só volta pra casa com a sacola vazia.

- mas de hoje não passa. vem comigo?

- não, obrigado, vou ficar aqui na cervejinha, regar um pouco mais o meu fígado, que tá louco de seco.

o pescador frustrado se embrenha no meio do mato. encosta no igarapé e fica por lá umas boas horas. quando retorna, seu amigo, já bêbado, lhe pergunta.

- então, conseguiu enganar os peixes?

o pescador respira fundo. olha pro saco vazio e diz:

- meu amigo, se eu te contar você não vai acreditar. eu tava lá, com a vara dentro d'água por mais de meia hora. foi quando eu senti uma tremida. mas não era uma tremida qualquer, era forte demais. firmei a vara nas mãos e puxei. parecia que era grande. soltei o carretel e a linha disparou pra dentro do riacho. eu não sabia o que fazer e então puxei com mais força. fui trazendo a linha na maior pressão e bem perto, consegui ver o danado. era enorme! nunca tinha pego um peixe daquele tamanho. o desgraçado lutou sem parar. não queria entregar os pontos. quando ele chegou quase na margem. vi uma sombra imensa se aproximando do peixe. fiquei assustado com aquele volume de água pra todos os lados. um peixe gigantesco, muito maior do que o que eu havia fisgado, sem a menor chance engoliu o meu pescado.

- sei... se eu te contar que meu fígado reclamou da cerveja quente, é lógico que você vai acreditar, não é?





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UMA TARDE QUALQUER




- comprei tomates e cebolas. e três cervejinhas...

- lata ou garrafa?

- lata, meu amor, são mais inofensivas. não quebram nunca.

- ainda bem que só foram três...

- e uma garrafa de vodka...

- seu filho da puta, tá querendo me comer mesmo...








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A SURPRESA DOS ASTRONAUTAS NA LUA


levantou às sete da matina. o gosto da noite anterior ainda o incomodava demais. como todos os dias. jogou água na cara pra acordar. escovou os dentes. sem pasta. e nada. abriu a tampa da privada e vomitou sem culpa nenhuma. até gostava da sensação de pássaros a rodear por sua cabeça. na verdade não tinha a certeza se eram pássaros ou qualquer outra bobagem que o deixava se sentir bem melhor. pensar nas aves era mais poético diante de tamanha ressaca. vestiu uma roupa, colocou o boné e saiu. foi à praia ver os peixes acordando. largou a bicicleta no calçadão. cumprimentou alguns pescadores amigos. conversou um pouco. ouviu muitas mentiras, todas saudáveis. dava gosto de ouvir uma história mais absurda que a outra. ele se divertia. aventurou-se também. ficou tão animado, que resolveu ir ao bar esquentar o seu pé. nem fez careta. como todos os dias. despediu-se dos amigos e foi para a pedra. subiu. olhou o horizonte infinito com seus mistérios e caminhos impossíveis pra ele. conversou com os peixes. falou sobre sua vida. entendeu o silêncio marinho. mergulhou. abriu os olhos embaixo d'água encantado com tamanha beleza. respirou. foi mais fundo. mais distante. entendeu a surpresa dos astronautas na Lua. voltou à pedra. desceu. esquentou mais um pouco o seu pé. foi pra casa fazer o café pra família. feliz. como todos os dias.



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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

DEIXAPRAAMANHÃ



E nos aproximamos do fim do ano... é verdade, já se foram seis dias. Ano de Copa do Mundo. Ano de eleição. Um ano que nem iremos sentí-lo. Volto a rotina diária. Quando viajo, sempre volto revigorado, mas também sempre retorno com aquele pensamento de que tudo irá mudar. Deve ser o excesso de otimismo espalhado por aí no período de festas. Excesso etílico. Tudo conversa. Nada muda. Falo das mudanças radicais e fantásticas que muitos brasileiros anseiam durante o período festivo. Coisas como chegar em casa e dar de cara com um disco voador, de portas abertas e com alguns seres estranhos me convidando para dar um voltinha pelo universo. Sumir geral. Apagar o vexame. Deixar pra trás o que não foi calculado, tudo aquilo que fugiu ao meu controle, aliás, esquecer a merda do controle. Não lembrar das pessoas que não merecem nem mesmo fazer parte de minha lista de esquecimentos. Circular por outros planetas e aprender novas táticas de desaparecimento temporário da vida alheia. Cruzar outras órbitas, beber outros líquidos, comer o que der na telha sem a menor pretensão dos modismos. Comer mais parentes da telha. Aprender algo não humano que me possibilite arrancar de vez os desejos de fazer qualquer coisa, arrancar de vez do meu pensamento o tradicional deixapraamanhã e que os desejos só existam se forem possíveis de realizá-los. Desejar em 2010, só a curto prazo...o ano vai passar batido. E que venham os extraterrestres!



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A PRÓXIMA GUERRA


Não é de hoje que eu recebo e-mails como esse, aliás, é sempre o mesmo texto, mas com autores diferentes. Resolvi publicar aqui só pela insistência... e também porque os governantes desse estado não estão nem aí pra população.

(Segue abaixo o relato de Mara Silvia Alexandre Costa, que passou recentemente em um concurso público federal e foi trabalhar em Roraima. Trata-se de um Brasil que a gente não conhece)


As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um Brasil um pouco diferente, mas chegando em Boa Vista (RR) não pude resistir a fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui. Conversei com algumas pessoas nesses três dias, desde engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução. Para começar o mais difícil de encontrar por aqui é roraimense, pra falar a verdade, acho que a proporção é de um roraimense para cada 10 pessoas é bem razoável, tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense, piauiense, maranhense e por aí vai. Portanto falta uma identidade com a terra. Aqui não existem muitos meios de sobrevivência, ou a pessoa é funcionária pública, e aqui quase todo mundo é, pois em Boa Vista se concentram todos os órgãos federais e estaduais de Roraima, além da prefeitura é claro. Se não for funcionário público a pessoa trabalha no comércio local ou recebe ajuda de Programas do governo. Não existe indústria de qualquer tipo. Pouco mais de 70% do Território roraimense é demarcado como reserva indígena, portanto restam apenas 30%, descontando-se os rios e as terras improdutivas que são muitas, para se cultivar a terra ou para a localização das próprias cidades.


Na única rodovia que existe em direção ao Brasil que liga Boa Vista a Manaus, (cerca de 800 km ) existe um trecho de aproximadamente 200 km da reserva indígena Waimiri Atroari por onde você só passa entre 6:00 da manhã e 6:00 da tarde, nas outras 12 horas a rodovia é fechada pelos índios (com autorização da FUNAI e dos americanos) para que os mesmos não sejam incomodados.
Detalhe: Você não passa se for brasileiro, o acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses. Desses 70% de território indígena, diria que em 90% dele ninguém entra sem uma grande burocracia e autorização da FUNAI.


Detalhe II: Americanos entram na hora que quiserem, se você não tem uma autorização da FUNAI mas tem dos americanos então você pode entrar.... A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês, mas a maioria não sabe falar português. Dizem que é comum na entrada de algumas reservas encontrarem-se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas.


É comum se encontrar por aqui americano tipo nerds com cara de quem não quer nada, que veio caçar borboleta e joaninha e catalogá-las, mas no final das contas pasme, se você quiser montar um empresa para expo rtar plantas e frutas típicas como cupuaçu, açaí camu-camu etc, medicinais, ou componentes naturais para fabricação de remédios, pode se preparar para pagar 'royalties' para empresas japonesas e americanas que já patentearam a maioria dos produtos típicos da Amazônia.




Por três vezes repeti a seguinte frase após ouvir tais relatos: É os americanos vão acabar tomando a Amazônia - e em todas elas ouvi a mesma resposta em palavras diferentes.. Vou reproduzir a resposta de uma senhora simples que vendia suco e água na rodovia próximo de Mucajaí: Irão, não, minha filha, tu não sabe, mas tudo aqui já é deles, eles comandam tudo, você não entra em lugar nenhum porque eles não deixam.. Quando acabar essa guerra aí eles virão pra cá, e vão fazer o que fizeram no Iraque quando determinaram uma faixa para os curdos onde iraquiano não entra, aqui vai ser a mesma coisa. A dona é bem informada não? O pior é que segundo a ONU o conceito de nação é um conceito de soberania e as áreas demarcadas têm o nome de nação indígena. O que pode levar os americanos a alegarem que estarão libertando os povos indígenas.




Fiquei sabendo que os americanos já estão construindo uma grande base militar na Colômbia, bem próximo da fronteira com o Brasil numa parceria com o governo colombiano com o pseudo objetivos de combater o narcotráfico.Por falar em narcotráfico, aqui é rota de distribuição, pois essa mãe chamada Brasil mantém suas fronteiras abertas e aqui tem Estrada para as Guianas e Venezuela. Nenhuma bagagem de estrangeiro é fiscalizada,principalmente se for americano, europeu ou japonês, (isso pode causar um incidente diplomático). Dizem que tem muito colombiano traficante virando venezuelano , pois na Venezuela é muito fácil comprar a cidadania venezuelana por cerca de 200 dólares. Pergunto inocentemente às pessoas; 'Porque os americanos querem tanto proteger os índios?'


A resposta é absolutamente a mesma; porque as terras indígenas além das riquezas animais e vegetais, da abundância de água são extremamente ricas em ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, pedras preciosas, minério e nas reservas norte de Roraima e Amazonas, ricas em PETRÓLEO. Parece que as pessoas contam essas coisas como que num grito de Socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma autoridade do sul que vá fazer alguma coisa. É pessoal, saio daqui com a quase certeza de que em breve o Brasil irá diminuir de tamanho.. Um grande abraço a todos. Será que podemos fazer alguma coisa? Acho que sim. Repasse esse e-mail para que um maior número de brasileiros fique sabendo desses absurdos.


Mara Silvia Alexandre Costa, Depto de Biologia Cel. Mol. Bioag. Patog.. FMRP - USP


Opinião pessoal: Gostaria que você, especialmente que recebeu este e-mail, o repasse para o maior número possível de pessoas. Do meu ponto de vista seria interessante que o país inteiro ficasse sabendo desta situação através dos telejornais antes que isso venha a acontecer.


Afinal foi um momento de fraqueza dos Estados Unidos que os europeus lançaram o Euro, assim poderá se aproveitar esta situação de fraqueza norte-americana (perdas na guerra do Iraque) para revelar isto ao mundo a fim de antecipar a próxima guerra.


Conto com sua participação, no envio deste e-mail..


Celso Luiz Borges de Oliveira, Doutorando em Água e Solo FEAGRI/UNICAMP
Tel: (19) 3233-1840 Celular: (19) 9136-6472






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domingo, 3 de janeiro de 2010

FÉRIAS


PRAIA DO FORTE - CABO FRIO/RJ



E chegou ao fim. Desde que me mudei pra Boa Vista eu nunca consegui ficar fora por mais de uma semana. Dessa vez eu realmente me senti em férias. Cheguei ao Rio de Janeiro no dia 09/12, dia do aniversário de meu pai. Ano passado eu esqueci a data de seu nascimento e dessa vez pra não bobear eu cheguei no dia exato. Não teve erro, até mesmo porque quando cheguei na casa dele encontrei uma deliciosa torta de chocolate. Fui embora dia 30/12. Na verdade, foi tempo demais.
Todas as vezes que estive no Rio foi pra fazer alguma capacitação. E com o tempo corrido, nunca dava pra fazer o que eu estava com vontade de fazer, como visitar amigos e viajar pela Região dos Lagos. Dessa vez rolou. Assim que cheguei encontrei alguns amigos que se formaram comigo na CAL. Foi ótimo revê-los. Estão todos bem. Percebi na conversa que o mercado de trabalho no Rio, pra quem trabalha com teatro, não tá nada fácil, aliás, nunca esteve. Meus amigos estão cortando um dobrado. Mas em Boa Vista a coisa também não é diferente.
Meus amigos da adolescência também estão bem. Passei quatro dias em Itaipuaçu na companhia de três amigos da antiga. Engraçado é que eu jamais poderia esperar aquela configuração, os três. Fique extremamente feliz. Foram quatro dias de churrasco, quer dizer três, o último dia eu fui embora, com muita cerveja, cachaça, e infinitas gargalhadas, bem na beira da piscina. Era pra eu passar apenas uma noite, mas os caras me alcoolizaram por todos os outros dias e quando me dei por conta já era quarta-feira. Iria pegar mal se eu resolvesse ficar mais um dia...
Voltamos pro Rio (eu e a Tati) e no dia seguinte pegamos a estrada pra Cabo Frio, na Região dos Lagos. Dessa vez levamos o pai da Tati conosco, que é um figuraço. Passamos um excelente Natal, pegamos praia e piscina todos os dias. Estivemos na Praia do Forte, Praia das Conchas e Praia do Peró, em Cabo Frio. No último dia visitamos a Prainha e a Praia Grande, em Arraial do Cabo. A primeira, água quentinha, lotada de peixes, água clara, nem dava vontade de sair. A outra, água gelada pra caraio. Era um mergulho e olhe lá. Lugares lindos. Eu passei minha infância e adolescência em Saquarema, que tem alguns kilômetros de distância. Cabo Frio eu só fui umas três vezes e com a Tati. Arraial do Cabo eu nunca cheguei perto, quer dizer, cheguei sim, Cabo Frio é do lado, uns 20 min. de carro. Foi uma viagem muito divertida.
Deixei um monte de gente de lado. Não consegui acertar meu horário com os dos meus amigos. Os familiares também ficaram pra depois. Minhas tias, meus primos, infelizmente não deu. Só deu tempo pra assistir dois espetáculos teatrais. O Fernando Pessoa, do Paulo César de Oliveira e o Auto de Natal do Grupo Tá Na Rua.
Consegui perceber nessas férias o fechamento de um monte de ciclos da minha vida. O encontro com um monte de gente, de diferentes épocas me fez amadurecer mais. Minha ida à vários lugares, o contato com antigos hábitos, tudo isso me leva de volta à Boa Vista com outros pensamentos, outros desejos, revigorado até o pescoço. É isso, tenho certeza de que minha presença no Rio foi muito mais importante do que apenas férias, sei que só as férias por si já é uma puta de uma relaxada, mas teve mais coisa. Eu sei disso. Eu precisava muito ter ido ao Rio nessas férias.







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OS BÊBADOS, OS FRACASSADOS E OS SEM A MENOR CHANCE NA VIDA




nem quero mais discutir sobre isso.
eu me identifico demais com os bêbados,
com os fracassados,
com todos aqueles que não têm a menor chance na vida.
são alvos de olhares nada amistosos da sociedade. também!
vivem com porradas na cara
são indiferentes aos comentários escrotos quando oferecem a outra face
sujeitos assim não são raros,
pelo contrário,
o ser humano é muito mais isso do que qualquer outra pretensão mascarada






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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

FOLIAS NATALINAS


E na sequência, hoje tem FOLIAS NATALINAS, o melhor do teatro de rua no Largo da Lapa, Centro do Rio. Lógico que estarei lá. A farra será comandada pelo Grupo Tá Na Rua, Cia. Teatro em Cordel, Cia. Mystérios e Grupo OFF-SINA. Eles prometem a presença de outros artistas e uma baita de uma festa ao ar livre. Depois eu conto como foram as apresentações.


FOLIAS NATALINAS
LARGO DA LAPA
19h
18/12/09





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ENCONTRO COM FERNANDO PESSOA

Paulo César de Oliveira


Estar de férias é ótimo, nem se fala no assunto, mas é o seguinte, tem vezes que cansa ficar de bobeira. Em Boa Vista tudo é perto. Em 10 minutos eu chego em qualquer lugar da cidade. Aqui no Rio de Janeiro é diferente, embora o transporte público nos ofereça conforto e segurança, o trânsito por outro lado não nos dá trégua. Na quarta fomos ao teatro, no Leblon. Bom, meus pais moram em Vila Isabel, do outro lado da cidade. De carro, dá pra chegar em uns 25 minutos, dependendo do trânsito. De ônibus, bom, de ônibus até que foi rápido, pegamos um que foi pelo Túnel Santa Bárbara, que dá uma tremenda cortada pela cidade e chegamos no Leblon em 45 minutos. Depois tivemos que andar umas cinco quadras até o teatro. É verdade que a vista do Leblon é maravilhosa, demos uma banda pela praia, mas cansa. Pela manhã do mesmo dia tínhamos ido à Praia. Isso só já deu uma canseira desgraçada. Engarrafamento monstro na Av. Nossa senhora de Copacabana. Mas vamos ao que interessa, um amigo nosso, Paulo César de Oliveira, nos convidou pra assistirmos ao seu espetáculo, Encontro com Fernando Pessoa. Na peça, Pessoa nos apresenta sua obra e por diversas vezes permite que seus heterônimos dialoguem conosco. O Paulo está impecável como Fernando Pessoa, muito parecido fisicamente e realmente nos faz acreditar que aqueles belíssimos textos acabaram de sair da mente brilhante do poeta português. Foi a última apresentação no Teatro Café Pequeno e acho que ele retorna aos palcos em 2010, quer dizer, com certeza retornará, pois esse espetáculo já está em cartaz desde 2001. Vou colocar o serviço só pra registrar:

Texto e Interpretação: Paulo Cesar de Oliveira
Direção: Jacqueline Laurence
Produção: Paula Abreu
Cenário: Paulo Cesar de Oliveira
Trilha Sonora: Paulo Cesar de Oliveira
Design Gráfico: Diogo Montes




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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

SEM OLHOS PROS LADOS


mendigo esfomeado - será que o cidadão poderia me pagar um salgado?
mauricinho carioca - se eu tivesse dinheiro, EU estaria comendo...
mendigo esfomeado - quer dizer que se o cidadão tivesse dinheiro não me pagaria um salgado?
mauricinho carioca - eu não disse isso, eu disse que se eu tivesse dinheiro...
mendigo esfomeado - tá certo, já entendi tudo, o cidadão iria livrar a sua pele primeiro...
mauricinho carioca - claro! e você faria o mesmo!
mendigo esfomeado - o cidadão pode até nem querer me dar o tal salgado, mas não me bota no mesmo saco de merda que o sr. não!
mauricinho carioca - que isso, mané! tá me chamando de merda?
mendigo esfomeado - eu não disse isso, eu disse que...
mauricinho carioca - tá certo, já entendi tudo, você tá afim de livrar a sua pele...
mendigo esfomeado - claro! o cidadão não fez o mesmo?




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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

SALINGER, BUKOWSKI, MOTTA E DIAZ


Finalmente terminei O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO, do Salinger. Um puta romance. Comencei a ler este livro em 2008, quando entrei em cartaz com HOMENS, SANTOS E DESERTORES, do Mário Bortolotto. O livro é uma das referências bibliográficas do texto do Mário, pôrra, o cara cita um monte de livros e autores no seu texto, então não tem conversa, além de ler a peça dele, tá mais do que na cara que preciso ler toda a bibliografia implicitamente indicada. Olha, não vamos exagerar também, pelo menos um livro de cada autor, ou se não der pra ler todos, que pelo menos eu procure saber um pouco da história deles. E nessas horas pode apelar pra Wikipédia. Se não for assim, não tem graça, fica superficial. É legal sempre aprofundar um pouco mais no tema, nos autores, essas coisas de quem curte lê. Agora, se eu for encenar um espetáculo, aí não tem jeito, essa é a rotina.

Bom, o Salinger, na voz do Hoden Caufield, que é o personagem que conta a história, fala um monte de coisas legais,


na minha opinião, isso é o tipo de pergunta imbecil. Quer dizer, como é que a gente pode saber o que é que vai fazer, até a hora de fazer o troço?


Essa é uma das pérolas que ele encerra o livro. E é isso mesmo, mania que as pessoas têm de cobrarem dos outros algum tipo de planejamento perfeito. Um final feliz pra sua existência. Pôrra nenhuma, o lance é viver e ver no que dá. O que for bom, mando ver e o que não for...abandono. Só mesmo experimentando é que consigo ter a certeza do que realmente gosto. É isso, terminei a leitura no vôo de Brasília/RJ.

Assim que cheguei na Cidade Maravilhosa ganhei um livro de poesias. Minha tia quem mandou pra mim. Faz alguns anos que ela começou a escrever e tem se dedicado bastante. Já faturou até prêmio e me presenteou com seu primeiro livro, PALAVRAS DO CORAÇÃO, de Zélia Santos Motta. São poesias autobiográficas. Comecei a ler ontem mesmo. Eu que faço parte da família, identifiquei muito da vida dela naqueles versos.

Mas a literatura não me deixou sossegado, ganhei de meus pais um livro do Bukowski, TEXTOS AUTOBIOGRÁFICOS, no qual o título original é Run with de hunted: a Charles Bukowski reader. Comecei a ler ontem mesmo. Esse filho da puta é bom demais. O livro é de 2009, olha a felicidade, e dessa grossura, ó! Vou detonar rapidinho. Bom, pra minha surpresa, ontem fui me encontrar com alguns amigos da época da CAL, lá no Mamma Rosa e alguns apareceram, entre eles a Verônica Diaz, que me presenteou com um livro que traz três textos teatrais e um deles é dela, URTICÁRIA. Foi premiado no 6º Concurso Nacional de Dramaturgia Prêmio Carlos Carvalho e publicado. No metrô tentei dar uma folheada, mas a Tati não deixou, queria falar, mas pelo que li já curti. Ela escreve bem pra pôrra, deve ser um puta de um texto. E vamos em frente. Pra quem vai ter que enfiar a cara nos livros acadêmicos em 2010, já termino 2009 na prática. Sempre cultivando este ótimo hábito.


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DEIXA DE PALA!


ei, morena, deixa de pala!
vai me dizer que ainda não viu o compromisso escondido entre dedos?
tô atado agarrado embebido de outro cheiro
sem chances de substituição sem chances de qualquer sacanagem temporária
tô completamente dentro
afundado até o pescoço de um amor muito louco





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SOBRE O BORTOLOTTO


Sei que passou a data, mas como cheguei ao Rio de Janeiro somente na quarta e na terça não consegui acesso em Boa Vista, de qualquer forma a mensagem está multiplicada. Espero que o Mário Bortolotto melhore o quanto antes. Não sou amigo do Mário, mas me identifico muito com a sua dramaturgia. Uma vez montamos um texto dele em Boa Vista (Homens, Santos e Desertores - 2008), e o cara autorizou a montagem para a Cia. do Lavrado. Ele foi muito bacana conosco, nos tratou com o maior respeito e carinho possível e nos motivou, inclusive, a fazermos uma nova temporada em 2009. Uma pena que não rolou. Teve uma vez que eu fui pra São Paulo participar de um encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua - RBTR, em 2008, e dei a maior cagada. O Mário estava em cartaz com o mesmo espetáculo que ele havia nos autorizado a fazer em Roraima. Eu nunca assisti a um espetáculo realizado com o próprio autor e que ao mesmo tempo eu o estivesse fazendo em outra cidade. Foi incrível! O Mário e o Gabriel (não lembro o sobrenome, acho que é Pinheiro) mandaram bem pra caralho. E não era a minha primeira vez com ele, já havia assistido a uma Mostra de Teatro do Grupo Cemitério de Automóveis, no Rio. Assim como muitos que assistem aos espetáculos dele, eu fiquei impactado com o que vi, principalmente porque eu estava fazendo o mesmo texto e vi uma infinidade de outras possibilidades e também leituras do mesmo. Bom, na saída eu ainda faturei uma carona com ele. Fui até a Praça Roosevelt, com ele e a Fernanda D'Umbra, que é amiga dele e muito gente boa. Bom, tá na cara que um carro com três outsiders, na certa a conversa não fluia muito, quer dizer, conversávamos por etapas. Depois nos silenciávamos. Depois falávamos. Tudo na maior tranquilidade. Bom, nem posso falar dele, pois não convivo com ele, mas com certeza o Mário me passou a impressão de ser um cara autêntico pra caralho, simples, na dele e sem muitas firulas e babaquices de famosos. Ainda tive outra cagada, nesse mesmo ano o Mário foi jurado do Prêmio Bolsa FUNARTE de Criação - Dramaturgia e eu coloquei um projeto lá. Fui aprovado. Um dos dois projetos aprovados na Região Norte foi o meu, Apenas um Blues e uma Parede Pichada, que tinha como ponto de partida na criação do texto o suicídio de jovens no estado de Roraima, que é o maior índice do país. Apenas um blues... quem conhece o cara sabe muito bem porque ele simpatizou-se com meu texto.

É isso, melhoras pro Mário e pro seu amigo, que também foi baleado. O texto abaixo, como disse, foi escrito por Christine Vianna, ex-mulher dele. Acho que não tem problema colocá-lo aqui, não acham? Então, torçam pela melhora de um dos maiores dramaturgos VIVO do nosso país.



POR CHRISTINE VIANNA


SOLIDARIEDADE E PAZ





Amigos da imprensa e amigos e frequentadores da Vila Cultural Cemitério de Automóveis.



Cheguei agora de São Paulo, deixando a Isabela com o pai que graças a Deus está num quadro quadro estável embora bastante preocupante. O que posso dizer é que os amigos de São Paulo se uniram numa manifestação linda no espaço Parlapatões e que eu apoio esta que o Losnak está organizando para hoje a noite. Peço também o apoio dos amigos, da imprensa e todos que acompanham nosso trabalho que divulguem pois enquanto permanecermos inertes frente à violência estaremos sendo coniventes com ela. Enquanto deixarmos essa podridão que tanto o Mário escancara em seus textos com o maior talento, nossos amigos, familiares, irmãos continuarão sofrendo algum tipo de atentado. E não digo somente a violência direta, mas também a violência politica de homens que nos roubam e continuam vivendo sem nenhuma punição e exatamente por esta falta de vergonha deste políticos que a pobreza é tão escancarada.

Bem, chega de discurso que na verdade é somente um dasabafo.

O Mário vai viver pois deseja muito a vida, mas sabemos que brindamos com a morte a todo momento.



SOBRE O ATO:

Nesta terça-feira (8), às 20 horas, será realizado na Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103, em Londrina) um Ato Público Pela Recuperação de Mário Bortolotto e Contra a Violência. No ato serão lidos poemas e trechos de peças do dramaturgo londrinense. Atores, escritores e amigos do dramaturgo participam do evento, aberto a todos os interessados.





PARA INFORMAÇÕES SOBRE NOSSO AMIGO: www.cemiteriodeautomoveisvilacultural.zip.net




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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O ÚLTIMO DIA


(A cena acontece dentro de uma delegacia da Zona Sul, Rio de Janeiro. É uma tarde de um domingo de verão. Um homem está de costas para o público e bastante alterado. Fala com um carcereiro, aos gritos. Seu nome é Hélio Paixão, um delegado de polícia de 55 anos. Veste calça jeans, camisa social, blaser, ostenta jóias douradas, tem uma medalha de São Jorge no peito. Usa uma pistola na cintura, mas só dá para ver o volume. Veraneio Vascaína, ao fundo).

HÉLIO PAIXÃO - (berrando) Autua esse safado aí! Viciadinho de bosta... E se criar tumulto senta o pau nele! (para o público) Aqui é assim, quem manda nessa pôrra sou eu. Deu pra entender? Na rua eles roubam, matam, estupram... Se drogam como uns loucos, feito esse infeliz que eu peguei fumando ali na esquina, sem vergonha... Na esquina da DP? Tá de sacanagem... Pra mim, todos eles são a mesma escória. Mas quando chegam aqui se transformam em santos. Nunca fizeram nada e ainda tem a cara de pau de exigirem os seus direitos. (dirige-se ao preso) Tu não tem direito nenhum, ouviu? (resmunga) Vai apodrecer nessa merda! (pausa) Não dou moleza pra vagabundo. O cara tá nessa vida porque quer, fez sua escolha, não fez? Agora que aguente as consequências. E ainda tem uns e outros que insistem em dizer que esses vagabundos, que se tu der mole, arrancam a tua vida num sinal desses aí pela cidade, e eles insistem em dizer que esses vagabundos são vítimas de uma sociedade preconceituosa, que não dá a mínima pras minorias. Agora a culpa é nossa! (ri) Uma tremenda hipocrisia... (colocando o terror) Quero ver quando um bandido desses invadir a tua casa, estuprar a tua filha, estuprar a tua mãe e matar as duas na tua frente. Aí eu quero ver você falar de direitos humanos. Esses caras não são humanos, acorda! Tô na polícia há 15 anos e já vi muita coisa ruim aqui, meu amigo, não tenho vergonha de dizer que não perdôo ninguém. Desconfio de todo mundo, até da minha mulher! Aprendi a viver assim. Todo mundo deve alguma coisa, todo mundo tem um segredo (pausa. Encara o público) Eu gosto de ser policial, é o meu sonho de criança (ri), me sinto realizado hoje. Minha família é que sofre muito com a minha escolha, eles não dizem mas eu sinto. Quando saio pra trabalhar eu tô consciente de que talvez nem retorne, mas eles... Quer saber? Eu agarro a minha medalha de São Jorge e vou na paz. Ele tem me protegido por todos esses anos (coloca a mão na arma), eles. (indignado) Vocês acreditam que tem bandido pagando pra quem matar policial? A rua tá cada vez mais perigosa. Subir morro, entrar em favela... Os traficantes estão com um poder de fogo muito maior do que nós e isso não é nenhuma novidade. A droga tomou conta da sociedade, agora são todas as classes. É uma doença que não querem que seja curada. Dá lucro! Esses jovens aí estão se drogando cada vez mais cedo, agora já é no primário que eles ganham uma presença de um estranho qualquer e aí começam... Estão completamente perdidos, assinam o próprio óbito sem ler no papel o que tava escrito. Isso é suicídio! Cambada de viciados... Tem é que baixar a porrada nesses desgraçados! É verdade, estou sendo honesto, se não fossem esses viciados, os traficantes não teriam tanto poder de fogo assim. São esses malditos drogados que sustentam a indústria do crime. Drogas, armas, poder... (com sarcasmo) Na madrugada eu não perdôo... Meto a mão na cara quando eu pego um elemento desses pela rua! Arrebento mesmo pra ver se o cara desaparece da área, quem sabe até mude de idéia e desista de usar drogas novamente... (pausa, acende um cigarro) Tenho visto muitos desses por aqui. Sempre desesperados, com os olhos esbugalhados, dentes travados, nariz escorrendo e passando até as melecas nos dentes. Eu não entendo como eles conseguem correr tanto risco. Hoje, se um jovem for preso portando drogas, tá aliviado na hora! Mandam o filho da puta pra tratamento. A gente até faz um terror, arrebanha uma verba, mas eles acabam sendo liberados. E as famílias dos colegas falecidos? Deviam mandar também pra tratamento. (pausa) Mas a gente se vinga também. Muitas vezes quando esses pregos não ficam pegados, pelo menos uma noite eles passam na cadeia e isso já é o suficiente pra eles se fuderem com uma turma bem barra pesada, ganham uma cerimônia do barbante, isso mesmo, colocam o anel de barbante. Foda-se! Quer saber? Caguei pra esses merdinha! Tem vezes até que neguinho pinta o rosto deles. Dormem no buraco, sabe o que é isso? É a privada dentro da cela, que humilhação, meu amigo. Ontem mesmo peguei um viciado, uma tal de Paulinho, em pleno sábado ensolarado, de manhã, saindo da boca de fumo. Coloquei ele lá... No meio da bandidagem... Durante horas ficou fingindo ser o que não era, contando história, tentando sobreviver lá dentro, tava se mordendo todo... (com Itálicodeboche) Bonitinho daquele jeito, não teve conversa, o mais malandro fez logo ele de mulher. De ontem pra hoje só se ouvia os seus gritos pela delegacia (voz em off dos gritos de Paulinho). Eu nem me meto, isso é problema deles! Já vi muito esse filme, é reprise diária. Agora, ele tinha cara de ser filhinho de papai. Hoje, pela manhã, eu liberei um telefonema, tá na lei, certo? E a família veio correndo resgatar o inocente. (com deboche) Inocente que eu peguei saindo da boca de fumo com um tijolinho de maconha e um saco, (demonstra com as mãos) assim ó, de cocaína, a droga tava enfiada dentro do cú! Brincadeira... Parecia um bicho, fedendo a bebida, se escorando pelas paredes dos barracos, morrendo de medo... A família não quer ver o problema, eu ainda tentei argumentar, sabe como é... – Vai cuidar do seu filho, meu senhor! E o moleque... o moleque não parava de repetir: (Imita o filho) - Agora eu vou mudar, papai! Eu juro! Mas não tem jeito... O filho do vizinho é safado, maconheiro, vagabundo... o do vizinho! Pimenta nos olhos dos outros é refresco e como eles não querem enxergar o problema, a solução está cada vez mais distante.
(Ele sai).






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