quarta-feira, 29 de setembro de 2010

TENHO

tenho hábitos desgraçados.
tenho manias bestas.
tenho obsessões que me perseguem por toda a vida.
tenho certezas bem distantes das verdades,
tenho fotos, vídeos, lembranças,
tenho a sensação de não ter a minha idade.





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CALCINHA BEGE É SACANAGEM!



- já sei qual é a tua...

- não brinca? já tá assim?

- sério. já te percebi desde às dez...

- legal, mas eu só cheguei aqui às duas...

- é que eu já tava te imaginando trocando de roupa antes de vir pra cá...

- babaca! nunca vi cantada mais idiota como essa...

- tudo bem, amor, não vou te convencer mesmo...

- nem fudendo...

- com certeza! nunca vi calcinha bege ser grande ideia pra uma noite de sexta...









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terça-feira, 28 de setembro de 2010

EUTERPE





Cara, época de campanha é foda! Olha, na boa, o estado de Roraima não tem artistas de renome nacional. Ou melhor, não temos ninguém que se destaque, sacou? Tem uns artistas por aqui que não engrossam o coro da maioria nem pelo caralho! Tem uns que recebem salário fixo, são músicos. E é lógico que tão fazendo campanha pra manter os seus salários em 2011. Na boa, pode parecer idiota, surtos de idealismos, mas meu amigo, essa prostituição aparece no resultado final do trabalho dos caras. Por essas e outras é que não conseguem muito mais do que cargos comicionados dentro do governo. Se perderam no caminho. Não sabem mais do que são capazes... Ainda bem que temos aqui uma figura maravilhosa chamada EUTERPE! Vá, minha cara, alcance outros horizontes. Não se deixe acorrentar por estas bandas. Faça o que de melhor você sabe fazer: cantar divinamente! Aguardem mais um pouco...ela tá chegando por aí...



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LUCAS

Acabo de receber uma notícia maravilhosa. Minha amiga, Lígia, que mora em São Paulo, já teve filho. Lucas, e tem seis meses. Que felicidade! Chorei. Sabia exatamente da importância que era pra ela ter um filho. Chorei. Fazer o quê? A Lígia foi minha namorada quando eu tinha vinte e poucos anos. Quase casamos. Eu morava no Rio e ela em São Paulo. Teve um tempo em que eu viajava direto pra Terra da Garôa. Quando a coisa ficou séria, pulei fora. Como sempre fiz. Não tava preparado pra encarar casamento, correr atrás da grana do fim do mês, essas coisas. Na verdade, não tava tão maduro quanto ela. E a vida seguiu o seu rumo. E somos amigos. De verdade. Mesmo distante, mesmo sem vê-la, sei lá, acho que há dois anos, sou capaz de me emocionar. Vida longa ao Lucas, que é um puta de um sortudo, pois de quebra tem uma mãe maravilhosa. Uma das melhores atrizes que já vi em cena. Muitas felicidades pra vocês!


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SÃO COSME E DAMIÃO

Ontem foi o dia de São Cosme e Damião. Lembrei disso quando já estava deitado na cama. Nem senti o cheiro desse dia. Por um momento fiquei triste, quer dizer, melancólico. Lembrei-me de um tempo em que a chegada do mês de setembro causava o maior rebuliço no bairro em que eu morava no Rio de Janeiro. Bonsucesso era o nome dele. Cara, eu comia muito doce nessa época. No início do mês já começavam a distribuir cartões. Esses eram os melhores. Eu já sabia que no dia 27 iria comer demais... ficava maluco contando os dias. Na noite do dia 26, eu nem dormia direito. Meus pais não conseguiam me segurar. Saía pela manhã com os amigos e voltava bem depois. E sempre abarrotado de doce nas mãos, quer dizer, nas sacolas, nas bolsas...só pra ter uma ideia, tinha tanto doce naquela época, que eu passava duas semanas comendo. Eu, meus pais e minhas irmãs. Tinha o povo que passava de carro nas ruas e distribuía. Tinha as idosas do bairro que nos convidavam no dia mesmo, para irmos pras suas casas e ao chegarmos lá era uma mesa dos sonhos! A Fantástica Fábrica de Chocolates era pinto! As ruas do bairro ficavam lotadas de crianças, adultos, de gente afim de faturar mais um saquinho. O dia 27/09 é uma das melhores recordações que tenho da minha infância e pré-adolescência. Disputávamos pra ver quem conseguia mais doces. Hoje a coisa mudou. Falei com meus alunos, que são adolescentes, e eles nem se ligaram na parada. Não faz parte da vida deles. São Cosme e Damião perdeu a fama dos docinhos. Hoje, é apenas uma dupla de guardas vigiando as ruas da cidade. E isso não tem nada de adocicado, não é mesmo?



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TEM VEZES EM QUE É PRECISO DAR UM TEMPO NA ESTANTE

Tava conversando com um professor outro dia, o cara dizia que a arte é du caralho e tudo mais, mas que não dá pra vivermos só dela. Ou melhor, ele disse que não dá pra viver dela. Eu concordei naquela hora e já faço isso há algum tempo. Não tô afim de prolongar esse papo, sabe? O fato é que hoje eu vivo do que faço. Bom, tem gente que diz assim, - olha, se você não fosse casado tava fudido... eu dou uma risada. E só isso. Não tô com meus soldados em prontidão. É melhor assim. Olha, faz tempo que percebi que de um jeito ou de outro eu não passo fome. Quem me conhece sabe que quando cheguei em Boa Vista, com apenas R$ 150,00 e montei uma oficina de teatro e que ninguém me pagava a mensalidade em dia, fui pras ruas vender artesanato. A grana dos cordões que vendia alimentou e muito a minha barriga e a do Renatão, que me acolhia naquela época em sua casa. Olha, já vendi muito sandwiche na Praia de Copacabana e conseguia dar meu jeito assim. Já parti pra porta do Maracanã em outros tempos pra vender ingresso de show de Rock, isso mesmo, fui cambista por um tempo. Sei que na hora do sufoco não vou ter ninguém pra contar. O sufoco é meu. Posso ter vários amigos, posso estar casado, mas o sufoco mesmo, somente eu vou segurar com a cabeça. Desde que cheguei em Boa Vista nunca fiz nada que não tivesse ligado ao teatro. Sempre tive um qualquer no fim do mês. Eu cheguei aqui com esse objetivo e até hoje não me distancio dele. Tem vezes em que a barra pesa, mas a corda nunca arrebentou. Tô feliz assim. Tava falando isso com meus alunos de teatro, sobre trabalho, profissões e sobre as coisas que gostamos de fazer e que quando conseguimos manter esse ritmo somo muito mais felizes. Vejo por aí um monte de gente com salários gordos. Cheios de esquemas políticos. Aparentemente são felizes. Na boa, no fundo eu sempre enxergo o recalque na cara de muitos. Perdem as suas noites de sono e vão para os seus trabalhos, que rendem a maior grana, infelizes. Percebo que tô do jeito certo. O teatro salvou a minha vida. E não largo essa ideia por nada que possam pensar me convencer. Sei lá, tô em cartaz com um espetáculo. Já ganhei minha grana para fazê-lo. Fui convidado para dirigir um outro espetáculo de amigos. Vamos ver se a estréia rola ainda esse ano. Em 2011, vou levar à cena um texto meu que curto demais. E vou ganhar também por isso. Então, tenho muito o que fazer. Meu pai foi vendedor a vida inteira. Não tinha salário certo no fim do mês. Eu nunca soube como ele conseguia sustentar a nossa família com tanta dignidade. Segui o caminho dele. Ele, sempre vendeu remédio. Eu, vendo teatro, cultura, entretenimento... mas o fato é que vendo e vivo disso. Bom, não tenho mestrado. Não tenho doutorado. E foda-se! Sobrevivo. Não é assim que tem que ser? Todos os dias acordar sem a certeza de nada e sem esperar que a vida passe a mão na minha cabeça. Nunca passou. Nunca vai passar. Ela é o jogador oposto. Sempre foi. E o pior é que mesmo ligado nesse jogo eu jamais posso me esquecer de que essa merda toda já tem vencedor. E com certeza não sou eu.




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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

PACARAIMA

Kleber Medeiros e Marcelo Perez
Foto: Tatiana Sodré


No dia 26/09, domingo, foi a vez do município de Pacaraima, fronteira com a Venezuela. Fizemos parceria com a Universidade Estadual de Roraima para que eles fizessem a divulgação e conseguissem a autorização para uso da quadra. Saímos às 15h. de Amajari e chegamos em Pacaraima quase às 18h. Fui bem devagar, estavámos cansados e ainda ficamos um bom tempo no Posto Fiscal. Os policiais revistaram até as nossas almas. Tudo certo, entramos na cidade. Encontramos com o Professor Devair, que nos levou à sua belíssima casa. Lugar de artista...bebemos alguma coisa, relaxamos um pouco e fomos pra praça. Bom, a quadra não é o melhor lugar para apresentarmos espetáculo. A acústica é péssima e com isso o público não aproveitou tudo o que podia. Mas foi bacana. Devia de ter mais de 80 pessoas. Muita criança, foi ótimo. Eles curtiram a nossa apresentação e ficaram felizes com a nossa presença por lá. O Professor Devair é o responsável pela organização do YAMIX, Mostra de Artes Universitária, que este ano está na sua 3ª edição e pela segunda vez será realizado em Pacaraima. Depois do espetáculo voltamos para a casa do Devair e fizemos um lanche. Ele tocou violão, rimos bastante e pegamos a estrada. Chegamos em Boa Vista meia-noite com a sensação de dever cumprido.




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SERRA DO TEPEQUÉM (AMAJARI)


Graziela Camilo e Marcelo Perez (ao fundo)
Foto: Tatiana Sodré




Mais uma etapa da itinerância da Cia. do Lavrado foi cumprida. O espetáculo A FARSA DO ADVOGADO SILVA E SANTOS foi apresentado no sábado, dia 25/09, na Serra do Tepequém, que fica localizada no município de Amajari e no domingo, 26/09, no município de Pacaraima, que faz fronteira com a Venezuela. Foi uma ótima viagem. Saímos de Boa Vista no sábado, às 8h. e chegamos em Amajari às 10h. O evento da Secretaria Municipal de Saúde foi cancelado e resolvemos viajar assim mesmo, na esperança de convocar de porta em porta o nosso público. Este município tem apenas uma rua principal, a que corta a cidade. Fizemos uma reunião e decidimos subir à Serra do Tepequém. Ficamos sabendo que alguns ônibus de excursão haviam subido mais cedo e então partimos pra lá. Ao chegarmos, já iniciamos a nossa divulgação de porta em porta, em algumas cachoeiras próximas, nas pousadas, campings, abordamos as pessoas pelas ruas, enfim, distribuímos nossos folders pra um monte de gente. O espetáculo foi marcado para às 19h. Bom, até aí tudo bem. Quando escureceu percebemos que não havia iluminação pública para a realização do espetáculo. Os postes de luz são distantes um do outro e as luzes são fracas. Como praticamente não passa carro, montamos nosso trabalho no meio da rua, literalmente. Colocamos nossos dois carros um de frente para o outro e acendemos os faróis. Além dessa luz, contávamos apenas com a luz da lua. O público chegou aos poucos e muitos de carro e moto, que ao encontrarem aquele ambiente, trataram logo de posicionar os seus veículos e acenderam os seus faróis. Pronto. O circo estava armado. Fizemos o espetáculo sob a luz dos faróis dos veículos. Tivemos um público em média de 60 pessoas. Um público acolhedor, contente com a nossa presença, aproveitaram ao máximo o que tínhamos à oferecer. Na metade do espetáculo começou a chover. Ficamos preocupados e até pensamos em interromper o espetáculo, mas quando nos demos conta, ninguém havia ido embora. Fizemos com a chuva, que depois de +/- 15 minutos sossegou. Foi uma das melhores apresentações da Cia. do Lavrado. Uma energia maravilhosa que aquele público nos transmitiu. Ao término do espetáculo, recolhemos nosso material e quando nos demos conta, não havia uma viva alma na rua. Só a Cia. do Lavrado e a visão incrível do Platô, todo iluminado pelos raios do temporal que não caiu. Fomos lanchar, felizes com a inesquecível experiência na Serra do Tepequém. Não temos boas fotos, mas lembranças...

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sábado, 25 de setembro de 2010

HISTÓRIAS

essa época tecnológica é massa! (gíria local). sou de um tempo que não tinha computador. não mesmo. em 87 comecei a escrever compulsivamente. tenho 41 hoje. quebrei minha perna em um acidente de carro. de carro na minha direção, pois fui atropelado. tava pra lá de Marrakesh...nem lembro direito o que aconteceu. a memória recente é a do hospital...cheio de enfermeiros e enfermeiras em cima de mim, no bom sentido... fratura exposta na tíbia e fratura no perônio. fiquei um ano engessado. nessa época me aventurei pelas madrugadas, pois o gesso era a maior agonia e não dava pra dormir. passei a ouvir os programas de rádio da madrugada. sim, era rádio naquela época. ficava encostado na cama, com o rádio escondido no tavesseiro e assim ía até às 6 da matina. quando ouvia meu pai pela casa, lá pelas 6 da manhã, desligava o rádio e dormia. nunca tinha passado pela minha cabeça em fazer teatro nessa época. lembro que escrevi dois cadernos de versos. pensava serem letras de música. os tenho guardados até hoje. minha punheta na literatura ou na mania de escrever começou ali. depois melhorei da perna e entrei numa banda punk. fui expulso da banda pouco tempo depois. sei lá, os caras não me entenderam, ainda penso que foi isso. é...até emplacamos uma música minha que tinha um verso assim..o que fede não é a merda/ e sim de onde ela vem/ eu quero mostrar pra você/o efeito que tudo isso tem, tudo bem... mas ainda acho que eles não entenderam a parada. depois, continuei a escrever. só na década de 90 é que me aventurei na dramaturgia. e aí não parei mais. essa porra de escrever é foda. na boa, mesmo estudando literatura na universidade, e ano que vem saio professor de português e literatura, penso que escrever é muito bom. mesmo que eu não esteja nos padrões. foda-se. não tô nem aí. olha, tô no lance em que não existem padrões. escrevo. simplesmente escrevo. bom... depois continuo isso aqui.





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QUANTO MAIS PRÓXIMO MAIS LONGE

indiscutivelmente...já foi. agora não tem oração que redima essa alma. a fé não interfere mais numa situação como essa. não dormi. fiquei direto. li. escrevi. pensei. e as horas se foram como um sopro. e agora? é pegar a estrada sem pestanejar. tudo é um risco quando não sabemos ao certo o que fazemos. ou quando escolhemos a trilha sonora errada. vou de Led Zeppelin. acordado. bom. a boa é que sei exatamente o que fiz. fiquei trancado no escritório das 23h até às 6h. vou pro banho. vou pras roupas. vou com a sorte. nada de fé. não essa fé religiosa. minha fé está embutida nas horas em que vivo. estou em boas condições, somente cansado. na verdade a sorte não cabe aqui. é puro romantismo. Ao chegar em Amajari, vou divulgar o espetáculo, na maior dificuldade, um sol desgraçado, a boca seca e a cabeça próxima do estouro e torço por uma janela de 12h às 14h. é o suficiente pra mim. vai rolar. sempre rola. Bem, pra quem tá acostumado a dormir poucas horas por dia, até que fiz um pequeno drama. sofram os que não me conhecem... ou melhor, sofram os familiares que se aventurarem por aqui. os que não me conhecem? olha... sofram os espíritos preocupados.






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TOCA-FITAS PARA O INFERNO

O feriado de Finados sempre arrastava um monte de malucos para Saquarema, Terra do Surf, no litoral do Rio de Janeiro. Em épocas de férias e feriados prolongados a malucada zarpava para as cidades litorâneas do Rio. E a Região dos Lagos era o lugar ideal. Quem não tinha grana, acampava na praia e passava os dias empapuçado de miojo. Nesse dia dos mortos de 87, os que estavam mais vivos do que nunca resolveram partir para lá. A concentração foi marcada na portaria do Cabeça. Russo, o dos cabelos amarelos e completamente sem noção, acabara de comprar uma Kombi. Estava decidido a ganhar uma grana extra, quer dizer, não tinha emprego e muito menos trabalho fixo, mas sempre dava os seus pulos pelo bairro. Nunca ficava duro, mesmo que para isso tivesse que partir para a ilegalidade. Resolveu que iria vender batidas em Saquarema. No dia anterior, invadiu a Favela de Manguinhos e comprou 10 garrafões de cinco litros de batidas variadas. Em seguida, parou no mercado e sacou 20 garrafas de cachaça. Da mais barata. Ficou duro. Foi para o fundo do quintal e preparou a mistura. Transformou os 10 garrafões em 70 litros. Pura bomba alcoólica. Reuniu uma turma esquisita, recolheu a grana da rapaziada para a gasolina e partiram rumo à Região dos Lagos. A viagem foi o terror. Saíram na madrugada do feriado. Estrada lotada, um puta de um engarrafamento e um sol de 40 graus. Nelinho, o mais velho da turma e viciado até em sal de fruta, acendeu um baseado atrás do outro. Ficaram loucos. A Kombi seguia em direções tortas. Depois de Niterói rolou uma blitz. Foi um desespero geral. Os garrafões estavam cobertos por um cobertor imenso e com todas as mochilas amontoadas. Alguns deitavam por cima, só de disfarce. Nenhuma armação foi suficiente para evitar que fossem parados. A barreira policial mandou todo mundo descer. Eles saíram do carro bem devagar, quase em câmera lenta de tanta maconha. Mostraram os documentos, pouparam as falas e foram liberados. Sorte que não foram solicitados a andar em linha reta. As autoridades nem olharam dentro da Kombi. Russo não tinha nota fiscal das bebidas e na certa levaria um baita de um prejuízo. Pegaram a estrada e sempre na maior fumaça. Chegaram em Saquarema com uma nuvem sobre o carro, quase de noite, devido ao trânsito intenso. Não tinham lugar certo para dormir e partiram para a praia. Estacionaram o veículo próximo de um monte de barracas, desceram e armaram as suas. A noite foi de lucro para Everton, o Russo. Vendeu tudo o que levou. Em apenas uma noite. Mas ele queria mais. E sem bebidinhas, inflamou a turma para que invadissem os carros do estacionamento da cidade. O centro estava lotado e só era permitido parar o carro antes da ponte. Uma imensidão de veículos sem nenhum guardador por perto. Nessa época, os toca-fitas valiam uma grana legal nas bocas-de-fumo dos subúrbios do Rio. Os seus amigos toparam a parada na hora. Todos eram ladrões, roubavam para patrocinar suas noites de loucura, orgias com prostitutas, travestis da Lapa e pranchas de surf zeradas. Saquarema, sem policiamento, era fichinha, prato cheio para encherem os bolsos de dinheiro e com certeza já sonhavam com as festas que fariam na volta à Cidade Maravilhosa. Esvaziaram as mochilas e partiram para o ataque. Foi um derrame geral. Abriram carros, quebraram vidros, estouraram painéis... A facilidade foi tanta, que eles deram mole, se descuidaram da segurança. Os que estavam escalados para a guarda, diante de tanta tranquilidade aparente, largaram seus postos e também começaram a quebrar as janelas. As mochilas já estavam lotadas quando apareceu uma joaninha, com dois guardinhas dentro. Faziam plantão bem do outro lado da ponte. Estacionaram. Assustaram-se com o barulho. Olharam em volta, mas não viram nada. Ficaram grilados. Quando já estavam de saída, ouviram outro barulho de vidro espatifado. Resolveram dar uma conferir. Entraram no estacionamento. Não queriam dar bobeira para o azar. Manja balão, um negro com os olhos virados, quase vesgos e sem nenhuma responsabilidade na cara, havia acabado de meter o pé no vidro de um Passat invocado. Rodas de magnésio, rebaixado, todo no estilo, na certa encontraria ali um toca-fitas da hora. O barulho atraiu os guardinhas. Ele chegaram próximo e viram um carinha com a metade do corpo dentro do carro. Sacaram o apito e mandaram ver. Manja balão ficou apavorado, tentou sair de primeira do veículo e nada. Ficou agarrado. O policial segurou a sua perna. Era uma cena isolada, já que os outros comparsas estavam bem longe, do outro lado do estacionamento. A polícia cercou o local e desovou o ladrão no final da praia de Itaúna. Até hoje, ninguém sabe o que aconteceu. Ninguém sabe a razão da morte do Manja Balão. Everton nunca mais tocou no assunto. Dois meses depois ele morreu. De acidente de moto. O povo do bairro diz até hoje que a vida cobra... será?





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FIM

as horas passam...sempre. os dias passam... é certo. enfim. os hábitos são raízes. não são doença e muito menos são coisas simples como o café da manhã com pão e margarina do comercial de TV. eles são uma puta dor de barriga lotada de feijoada gordurosa. são maléficos. são socos diversos na alma insistente de um sim.
Fim.










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DESACORDO





- olha, vou ser sincero contigo...não dá mais...

- (ela abre a calça do rapaz)
- olha, não é bem assim...
- (ele rejeita, mas sua atitude diz sim)
- bem...você é muito insistente... pára com isso...tá tudo errado...
- (ela coloca a calça dele pro lado)
- vamos conversar...não dá mais pra continuar...
- (ela começa a lhe chupar)
- desse jeito não tem diálogo que resista...você é uma peça rara
-(ela leva um estocada na cara)
- tá vendo? isso é culpa tua!
- (ela coloca o rabo virado pra lua)
- gostosa! filha da puta!
- (ela goza e diz com um cara bem sínica que não sente a menor culpa)









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TUDO IRONIA

tem vezes em que fico sentado em frente ao computador sem palavras. sem letras, sem ideias e sem pensamentos organizados. ou sem pensamentos impulsivos, seja lá o que for. aperto os meus celulares (tenho dois, grande merda, mas é preciso ser assim...) na intenção de ter alguma novidade. é sempre o mesmo visor. ninguém. olha, isso não é papo de quem tá na maior solidão, não mesmo, se você pensa que estar cercado de um monte de gente significa a maior expressão da não solidão...então, meu amigo(a), tá fudido(a) legal. às vezes tô cercado de pessoas queridas, o papo rola solto, o clima parece dos melhores, mas meu pensamento tá longe. e ninguém percebe. tô sozinho ali. não que isso seja o fim do mundo e nem quero que outros se aproximem com a intenção de me acolher. nada disso. eu já percebi a parada. quando eu não consigo ou não quero ou não tenho forças pra ir em frente, são esses momentos, na real, em que me sinto só. essa porra de solidão tá dentro de mim. essa porra de satisfação por algo que penso ser suficiente por algum momento, tá dentro de mim. não dá pra me enganar. porra de equilíbrio impossível! comprei uns biscoitos, salgados desses bem podre, de queijo, para os meus cachorros. os putos adoram. mas não sabem que fazem um puta de um mal. me amam cada vez que eu dou mole e os presenteio com esse petisco. entendeu? nem sempre o que eu recebo com o maior amor, a maior das boas vontades significa que me querem bem. na maioria das vezes me metem na maior roubada, com o maior carinho e eu fico apático, feliz e satisfeito com mais um degrau diante de minha derrocada. a vida é uma ironia. e isso não é nenhuma novidade...








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O INFERNO É AQUI, QUER DIZER...NO POSTO DE GASOLINA PERTO DE MINHA CASA

essa parada de ambiente é foda. dizem que não rola, mas a verdade, penso que é por demais de foda. fui no posto de gasolina comprar um cigarro. mesmo diante das imagens apelativas atrás do maço, ainda insisto em apreciar a fumaça que sai de minha boca para o mundo, minha afirmação para o nada perfeito. faço parte. enfim, o clima tava tenso. muitos carros com música bem alta. só forró. e não aqueles, como Luiz Gonzaga, o fato é que me senti muito mal. comprei o cigarro, diante de alguns olhares sem noção. um cara até se dirigiu a mim. falou nada com nada. concordei com a cabeça e para a minha sorte não foi nada que me comprometesse no momento seguinte. ele apenas sorriu. um sorriso assim... sem nenhum significado. não tenho religião, mas pensei na hora em entidades. tem umas figuras na madrugada que me lembram algumas... montei na moto e vazei pra minha casa. quando entrei, tava rolando Good Times, Bad Times, do Led...sentei no sofá, acendi um cigarro, curti o som e deixei a fumaça me enternecer. tem vezes que preciso só disso. de um momento amoroso, compassivo, brando e de todos os sinônimos passíveis de me acalmar.






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SOMOS O RESTO DE QUALQUER PONTO INSIGNIFICANTE



o resto é qualquer bobagem

o líquido é 70 por cento
os poros transpiram álcool
tudo pura sacanagem
são metáforas de um louco
realidade ingrata
o distúrbio de poucos
muitos sem chance de fato
e derrubamos os copos
enfileiramos os corpos
somos muitos e ninguém
e estamos muito além
somos perfeitos em nada
ponto final na estrada













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AMANHÃ É VORTEX! LEMBRAM DESTA MÁQUINA DE PINBALL?

Amanhã a ressaca é inevitável. É sempre assim, só mais um...e aí já entornou o pote. Olha, nem ligo mais pra isso. A fama sempre precede a moral do homem. Então, nunca acreditem na unanimidade. O grande Nelson que o diga, vamos para os fatos. Então, essa sexta tá do mesmo jeito da outra. Nada muda, certo? Tem vezes que até nos deixamos enganar, mas no fundo nada muda. São locais diferentes, pessoas diferentes, mas o contexto nunca muda. O fato é que já começamos perdendo. E de goleada. E não vai ser uma sexta qualquer que irá me convencer do contrário. Vou cumprir a tabela, fazer a minha parte como humano e completamente enrolado nas minhas falhas convicções. Nas minhas falsas certezas. Nas minhas esperanças de um tudo melhor que jamais irá chegar.



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MUDANÇA NOS PLANOS

Mudança nos planos. A Secretaria Municipal de Saúde de Amajari, responsável pela nossa ida ao município cancelou a ação de saúde que iria acontecer amanhã. Motivo: falta de combustível na cidade. É, meu povo, esse é mais um obstáculo dentro de nossa itinerância. Em um país lotado de petróleo, ainda temos que sofrer com isso. Viva a PETROBRAS! Não culpamos os caras do município, é a realidade. Além das estradas em péssimo estado, das pontes que desabaram no último temporal, ainda temos que segurar essa onda de combustível. As compras já foram feitas. As malas estão prontas, e com isso, o que nos resta fazer? Vamos viajar. Chegaremos às 10:30h no município e visitaremos cada casa da Vila Brasil, isso mesmo, uma vila e com poucos habitantes, pra ter uma ideia, a parada é só uma rua principal e mais nada. Mas convidaremos toda a população para a nossa apresentação que, agora, será às 18h. Depois disso não rola, por causa da novela. E ainda tem muita gente que vai para as fazendas e sítios nos fins de semana, mas nem todo mundo tem condições pra isso. Contamos com a população que fica. O espetáculo vai rolar em frente da casa da Tatiana, da Cia. do Lavrado (minha digníssima esposa...) e que mora lá durante a semana. Vamos pousar na casa dela. E seja o que Deus quiser! Nunca fizemos isso, ir de casa em casa em busca de nosso público, aliás, todas as vezes em que estivemos em municípios do estado de Roraima foi através de parceria e o público, de certa forma, tava garantido. Dessa vez será diferente. É um tesão pensar nessa possibilidade. Vamos visitar as casas pela manhã e pela tarde. Depois faremos um cortejo até o local da apresentação. E vamos ver no que vai dar. Vida longa ao teatro de rua!



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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

AMANHÃ...PÉ NA ESTRADA!


Graziela Camilo e Marcelo Perez
Iracema/RR (12/09/2010)
Foto: Alexandre (SESC)






Amanhã cairemos na estrada rumo ao norte do estado de Roraima. Apresentaremos às 11 da manhã no município de Amajari, noroeste do estado, terra da Estação Ecológica Maracá e da Serra do Tepequém. Pesquisem na internet, os lugares são lindos! E no domingo, 26/09, às 18h, em Pacaraima, norte do estado e fronteira com a Venezuela. O curioso desta viagem é que nunca apresentamos espetáculo de manhã. O clima daqui não permite isso. O sol tem direção certa e se você não se proteger, racha a cabeça legal... Vamos ver como vai ser em Amajari.
E em Pacaraima vamos apresentar antes da missa, que é às 19:30 e o povo todo da cidade parte pra lá. Não dá pra disputarmos com a religião. Com sorte, daremos um pulo na Serra do Tepequém ou em Santa Elena de Uairén, na Venezuela. Em Pacaraima já acontece manifestação teatral há algum tempo. Tem o Yamix, Mostra de Artes Universitária, promovido pela UERR e que rolou ano passado por lá. Até ganhamos o 1º lugar no segmento Teatro, com o espetáculo ABSURDÓPOLIS, QUE NOS PERDOE ARISTÓFANES, uma livre adaptação da obra LISÍSTRATA, de Aristófanes. Um espetáculo muito bacana. Nossa primeira dramaturgia, fora os espetáculos de DST/AIDS, que criticava direto o poder público, privado e a sociedade e suas mazelas contemporâneas, aliás, quando falamos em sociedade não dá nem pra utilizarmos este termo, certo? Montamos este espetáculo com recursos próprios. A única verba que ele faturou foi o dinheiro do prêmio do YAMIX e o cachê para apresentarmos em Porto Velho/RO, na Mostra de Teatro de Rua. Estamos com projeto aprovado pelo estado de Roraima, desde 2009, mas até hoje a grana não saiu. Não sei o que fizeram com nosso recurso. Um dia... quem sabe? Colocamos este espetáculo no Prêmio FUNARTE Artes Cênicas na Rua 2010, aliás, colocamos em 2009 também, para circularmos pelo estado de Roraima, por alguns municípios do Amazonas, um município da Guiana e uma apresentação na Venezuela, mas não fomos aprovados. De novo. Uma pena. Vamos insistir com este projeto, pois visitar outros estados e outros paises é uma meta da Cia. do Lavrado, mas que requer recursos. Por enquanto, ficamos pelos municípios do estado de Roraima, que é uma puta vitória. Pela primeira vez um espetáculo teatral circula por todos os municípios do estado. E só posso dizer que tá bom demais. Fazer contato com um público, que na maiora das vezes nunca esteve na capital e muito menos teve a oportunidade de assistir um espetáculo é por demais gratificante. Estamos aprendendo muito com nossa itinerância. É isso. Pé na estrada, Turma de Narigudos do Lavrado!





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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

FINADOS

Estacionou no acostamento completamente sem combustível. Desceu do carro e o empurrou. A chuva não o ajudava em nada. Sabia que este seria um 02 de novembro inesquecível. Acendeu um cigarro. Esperou. Apenas o vento falava ao seu ouvido. O rádio, mudo. Tentou dar um jeito. Enfiou a porrada no pobre coitado do aparelho estéreo. Estéril continuou. Sentou na calçada molhada e deu os últimos tragos por ali. A temperatura baixou muito rápido. Vestia apenas uma camiseta e uma bermuda. Sentiu frio. Lembrou-se da garrafa de uísque escondida embaixo do banco. Restos do passeio do fim de semana com os amigos. Mamou até a última gota. Precisava esquentar o sangue. Ferveu. Tirou a camiseta. Avistou um farol vindo na outra pista da estrada, lá embaixo e em sentido contrário. Correu até a ribanceira e escorregou todo desengonçado. Não podia deixar passar essa possibildade de fuga. Caiu sem jeito na pista ouvindo apenas uma freada brusca. O velho Gordini azulado estancou com o parachoque bem próximo de sua cara. Levantou-se aos tropeços.
- o que o sr. deseja? Perguntou a menina, uma feiosa, com um óculos fundo de garrafa. Ele não bobeou.
- Me leva embora, eu não aguento mais! Um pedido de socorro, sem meias palavras. A feiosinha abaixou o resto da janela. Chamou-o para perto. Parecia querer lhe contar um segredo. Ele imediatamente se aproximou da janela do carro. Levou uma estocada no meio do pescoço. Uma barra de ferro pontiaguda, prateada e muito reluzente cravada em sua garganta. Ele olhou arregalado para a criança, que sem a menor cerimônia puxou a tampa na ponta da barra, enfiou a boca com avidez e sugou todo o seu sangue. Depois de cinco minutos naquela sugação a menininha ingênua e aparentemente bêbada pegou o seu celular.
- mamãe, não precisa me esperar que eu já jantei. Acelerou o Gordini e desapareceu na estrada cavernosa. Ele ficou lá. Seco. Sóbrio. E sem ajuda.







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