domingo, 27 de setembro de 2009

O DESGASTE DO TEMPO NOS DENTES


Foi avisado pelo dente caído. O tempo acabara de marcar sua passagem. Encostou-se na cama, sem sono. Varou a madrugada com sua imagem desbotada na lembrança. Não assumiu nenhuma culpa. Percebeu-se. O desgaste do tempo estava evidente nos seus fracos dentes. Levantou-se. Sem nenhuma pressa. Foi ao banheiro e os escovou com uma calma jamais alcançada em toda a sua vida. De volta à cama, ajeitou o travesseiro com muito carinho. Tranquilamente. Sabia que o tempo não determinaria outra passagem tão cedo.

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CONTRA VERSOS



há controvérsias
há outros versos
há versos avessos
há poesia, acredita?






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DE NOVO SALINGER




a gente não precisa estar sempre nesse negócio de sexo
para conhecer direito as garotas




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NA CARA DURA




tô comendo o filtro faz horas
São Paulo já não me controla
faz tempo que larguei o caderninho
politicamente correto...






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J.D.SALINGER






sexo é o tipo da coisa que não consigo entender direito.
a gente nunca sabe em que ponto está.
vivo estabelecendo uma série de regras sexuais para mim e aí,
não demora muito, desobedeço a todas elas.







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VERDADES




não tenho certeza de mais nada
nunca entendi as verdades
hoje, a sensação de perda é bem maior
o tempo é um desgraçado desnecessário autoritário
sem volta e infinitamente cruel
tem a dor no movimento de todas as coisas






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CIRCO VIVO BLUES




você acha que isso é drama?
drama é se tocar que chegou aos 40
sem nunca ter entrado pela porta da frente.
corda-bamba por toda a vida, baby






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SOBRE FELICIDADE FABRICADA



continuo empregnado por tombos certeiros
já sou fiel perdedor
não sofro das canções de vitória antes do tempo
nunca tive a chance de ser um cantor
nem mesmo protagonista de minha própria vida
tristeza é sentimento egoísta
sou menos que a menor parte de um pedaço qualquer
é pretensão demais fingir felicidade






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VAI SE FUDER COM ESSA HISTÓRIA, BICHO!




não quero nem saber de suas desculpas
vou de Maiakovsky
prefiro morrer de vodka, meu amor
o tédio é escroto demais
cansei de ouvir o sinal de ocupado
furei a fila na maior cara dura
transbordei o copo faz tempo
se liga, criatura!

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CAMINHADA ESPIRITUAL



Pulou do coletivo aos gritos. Não tinha dinheiro para a passagem, mas também não precisavam tratá-lo com tamanha grosseria. Caminhou sob um sol de rachar. Já havia até esquecido o ocorrido. Não era de guardar ressentimentos por mais de cinco minutos. Foi o tempo de um cigarro. Queria apenas passear. Se pudesse não pensar, seria ótimo, mas não conseguia atingir essa proeza. Nunca prestou para ser monge. Desconfiava de tais hábitos absurdos. Nunca foi ligado em nenhuma religião. Desconfiava de tais crenças com discursos absurdos. Sabia que precisava seguir um caminho espiritual. Mas nunca foi convicto em nada. Visitou diversas igrejas, passou por seitas malucas, conversou com pastores e continuou sua peregrinação em busca da almejada paz. Ou do desejoso tumulto contínuo. Sabia que só avançava alguns passos após um tremendo rebuliço em sua vida. E assim seguia. Sem muitos planos. Apenas os dias e suas possíveis soluções imediatas. Depois de muito caminhar, deu de cara com uma placa vermelha. Letras enormes. Um convite aos olhos mais distraídos. TEMPLO HARE KRISHNA. Já havia ouvido falar. Principalmente da comida que era servida durante o culto. Uma delícia da culinária natureba. Não tinha um puto na carteira, aliás, nem tinha carteira. Com a fome estampada na cara, e duro, não fez por menos. Subiu a ladeira. Já havia ouvido um monte de histórias, mas nada que o convencesse de fato a encarar o evento. Mas da comida ele lembrava. E isso bastava para motivá-lo a encarar a subida. Chegou na porta, viu uma imensa fila. Ficou surpreso. Vasculhou a multidão e percebeu gente de todas as classes. Não se intimidou, pelo contrário, sentiu-se muito a vontade. Chegou de mansinho, como se já fosse local. Puxou assunto com um, respondeu às dúvidas de outro. Em pouco tempo já estava na frente da fila. Cheio de intimidades. As pessoas entravam e deixavam os seus calçados ao canto da porta. Ninguém tomava conta. – Incrível! Pensou, abismado com tal confiança. Encostavam seus calçados e pegavam um horroroso chinelo. Confortável sim, mas extremamente de mau gosto. O local era muito tranqüilo, perfumado. Cheirava a paz. Pessoas, aparentemente felizes, espalhadas pelo jardim. Umas liam, outras conversavam. Um clima de céu legal. Aproximou-se dele uma mulher com a cabeça raspada e uma bandeja de comida nas mãos. Uns bolinhos esquisitos. Ele se serviu. Tudo completamente diferente do que ele estava habituado. Comeu bastante. Encheu a pança. Alimentou a larica zilhões de vezes. Ninguém o recriminou. De repente, o sino. Uma única batida com uma propagação quase infinita. As pessoas começaram a entrar no salão. Ele estava cabreiro, observou atento. Apenas deixou a coisa tomar jeito. Foi um dos últimos a entrar. Não tinha outra escolha. Apesar do excesso de comida, ainda estava ligado demais. Não gostava de lugares fechados, com muita gente. De repente começou uma cantoria. Ritmos orientais. Um bando de carecas caminhando pelo espaço, entoando mantras monossilábicos. As pessoas, em seguida, começaram a imitação. Em pouco tempo, estava uma correria danada dentro do amplo salão. E ele parado. Incrivelmente congelado. Tentou perceber a dinâmica, sem muito êxito. Mexia apenas a cabeça. Percebeu vários olhares indesejáveis. Começou a sua caminhada sem tirar os olhos das outras pessoas. Desconfiou. O ritmo dos demais acelerou. Começou uma louca correria dentro do salão. Ele se descontrolou. Não perdeu tempo e saiu correndo. Os olhos saltados. Tinha a plena certeza que queriam pegá-lo de qualquer jeito. Encontrou uma oportunidade e se mandou dali. Pegou o primeiro calçado pela frente e desceu a ladeira. Sua caminhada, ou sua corrida, espiritual havia chegado ao fim. Por hora, não sentiu nenhuma espiritualidade, mas manteve os pés secos durante todo o temporal que o surpreendeu na saída. Talvez o espiritual estivesse ali. Coitado de quem pegou o seu sapato furado... o inferno decididamente era ali. Hare Krisna!





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sábado, 26 de setembro de 2009

E EM BELÉM DO PARÁ...


Acabei de chegar do jantar, nas Docas, em Belém. O Encontro Internacional de Teatro Contemporâneo tá bom demais. O Itaú Cultural reuniu cerca de 40 artistas de teatro da Amazônia. Discutimos muito no dia de hoje. Mais uma vez pude perceber que Roraima não está distante de todos os estados do Norte. As questões são as mesmas. Dificuldade no intercâmbio entre os grupos, a relação entre eles; a ausência de alguns no diálogo em favor da construção de políticas públicas; permissividade diante de políticas excludentes; dependência de verbas federais para a manutenção dos grupos; perda de identidade artística em prol da sustentabilidade, entre outras coisas. O fato, minha gente, é que, independente das questões individuais, é extremamente necessário sentarmos pra discutirmos o teatro no nosso estado. Neste evento estão presentes a Cia. do Lavrado e o Grupo Criart Teatral, que são dois grupos de Boa Vista que produzem regularmente. Precisamos fomentar novas discussões dentro de nosso estado, olho no olho, sem questionarmos as escolhas de cada um, mas por um momento, deixarmos de lado interesses pessoais em prol do desenvolvimento do coletivo. O foco das discussões aqui é o teatro de grupo. Vamos em frente. Temos muito pra trocar com todos. Não é novidade nenhuma que o teatro de Roraima, de um ano pra cá, tem descido ladeira abaixo. Não vamos elencar culpados. Não vamos elencar as controvérsias. Vamos pensar no público, que ao invés de ser detonado com muitas apresentações, está extremamente carente de produção no nosso estado. É isso. A Cia. do Lavrado tentará novo diálogo na volta. Vamos nos entender!!!






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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

ENCONTRO INTERNACIONAL DE TEATRO CONTEMPORÂNEO

Foto: Arquivo

Logo mais, quer dizer, na madrugada de sexta-feira, 25/09, viajo para Belém/PA. Vou representar a Cia. do Lavrado na sétima edição do PRÓXIMO ATO - ENCONTRO INTERNACIONAL DE TEATRO CONTEMPORÂNEO, que discutirá questões ligadas ao teatro de grupo no Brasil. Estarão presentes cerca de 40 artistas de teatro da região norte, que participarão de fóruns de discussões e debates.

CONVIDADOS:

Peter Pál Pelbart (São Paulo) é filósofo, ensaísta, autor de, entre outros, O Tempo Não-Reconciliado (Perspectiva, 2004) e Vida Capital (Iluminuras, 2003), tradutor de obras de Deleuze e professor no Departamento de Filosofia e na pós-graduação em psicologia clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), além de coordenador da Cia. Teatral Ueinzz.

Cibele Rizek (São Paulo) possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1972), mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1988) e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (1994). Atualmente é professor do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania, também da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Outras Sociologias Específicas, atuando principalmente nos seguintes temas: cidades, reestruturação produtiva, habitação, espaço público e cidadania.

Paulo Ricardo Nascimento (Belém) é ator, ator-manipulador, diretor, produtor e pesquisador. Integrante Fundador do IN BUST TEATRO COM BONECOS. Coordena os projetos de circulação do grupo e o projeto artístico do programa de TV Catalendas, da TV Cultura do Pará. Atualmente é pesquisador-bolsista do IAP, estudando o ator-manipulador na Poética Cênica da In Bust.


COORDENAÇÃO - Professora Wlad Lima
LOCAL - Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará.



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TUDO NA CAÇAPA

Só lhe restou o vazio da mesa e o silêncio assustador pelo ar. Ele nunca havia perdido um campeonato. Enfiou o taco nas costas e deu meia-volta. Cabisbaixo. O foco preciso no chão. O bar. Sua única direção. Debruçou-se ao balcão. Exigiu um conhaque. Nem sentiu o gosto. Pediu outro, ainda mais transbordado. Não costumava passar da segunda, mas o orgulho encarregou-se de não parar a contagem. Ficou bebaço. Chorou baixinho para dentro do copo a noite inteira. Trocou poucos olhares. Todos mudos. Era um apaixonado sem sua amante nos braços. Estava triste e completamente derrotado. Jurou que nunca mais iria jogar. Passou o resto dos seus dias com os pés enfiados na jaca. Mudou de endereço. Escolheu as calçadas. Um ano depois, no aniversário da cidade, o prefeito resolveu realizar um novo campeonato. O Sarjeta, então, decidiu ficar limpo. Comprou roupa nova. Fez a barba. Ficou irreconhecível aos olhos do povo. Em pouco tempo, já estava cercado de novo com aquela penca de puxa-sacos desgraçados. No dia da competição, chegou de fininho. Não queria causar alardes. Fez sua inscrição e aguardou a sua vez. Dirigiu-se à mesa, ginásio lotado, ele estava agitado demais. Suava frio demais. As pernas estavam bambas, demais. Mirou a bola com a convicção necessária e sapecou a redondinha com todo o resto de esperanças que ainda tinha. Acertou quatro. De cara. Gritou sua felicidade sem nenhuma censura. Mesmo com todo o seu gabarito, sabia que o que acabava de acontecer não passava de uma tremenda sorte. Não era um principiante, mas não pegava no taco já fazia um ano. Ficou valente para a próxima tacada. Com todo o seu charme, arrochou o giz em seu taco. Mas a mão não parecia acompanhar suas emoções. Aos poucos, embebido de tanta paixão, a danada cobrava sua religiosidade. Preocupou-se com o descontrole. Não resistiu, - uma dose, faz favor! O público silenciou. Todos ficaram paralisados diante de tal solicitação. Mirou sem muita certeza nos olhos e rasgou o forro da mesa, zunindo a bola para o lado de fora do salão. Mais uma vez derrotado. Agarrou uma garrafa de conhaque e se mandou por debaixo das mesas. Sentou-se no beco, ao lado do ginásio e fixou residência por ali. Deixou tudo naquela partida. Tudo na caçapa.






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terça-feira, 22 de setembro de 2009

A REALIDADE É A MAIOR MENTIRA DE TODOS OS TEMPOS

a realidade sempre foi algo insuportável pra mim. as coisas como elas são sempre me aterrorizaram. o que alguém é capaz de fazer pra se dar bem nesse sistema fudido de motivador do individualismo, sempre me incomodou demais. sempre me incomodou demais todas as vezes que usei os mesmos artifícios pra sobreviver. sou um merda de um tradicionalista metido a revolucionário. todos são. todos pensam que não. mas todos são. e são, é algo que não posso me dar ao luxo de ostentar. são... nessa onda do medarbemdequalquerjeito, não. nunca são. enquadrar-se requer sofrimento. pertencer carrega preços altos demais. insistir no não pertencimento é permanecer pra sempre no purgatório. tudo é falso. não existe novidade. não existe criatividade. não existe competição verdadeira e todos nós já perdemos desde o dia em que nascemos. hoje acordei um pouco mais otimista. mas até o final do dia vou me encher, de novo, da realidade.








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domingo, 20 de setembro de 2009

SOBRE A ESTRÉIA

Ontem foi a estréia, em Boa Vista, de Absurdópolis, que nos perdoe Aristófanes, nova produção da Cia. do Lavrado. Apresentamos na Praça das Águas e com direito a uma grande roda. O chapéu rendeu R$ 40,00, o que contribuiu e muito para a rodada de pizza após o espetáculo. A Praça das Águas, aos sábados, sempre tem muita gente. As pessoas vão à praça para passear, para encontrar com outras pessoas e sempre encontram alguma coisa legal para fazer. Além do nosso espetáculo, tinha também uma roda de hip-hop, uma roda bem legal e muito animada. Do outro lado, o SENAC também realizava um evento. E parecia estar bem bacana, pois o povo também estava lá. Muitas famílias, gente de todas as idades e livres para escolherem a sua programação. Tem gente que assiste um pouco de tudo, outros são fiéis e ficam em um mesmo evento até o final, e ontem, tinha público para todas as manifestações culturais que pintassem pela praça, para tudo que pudesse chamar a atenção desse povo carente de entretenimento.
Sobre o espetáculo, a única crítica que faço, quer dizer, já fiz, foi que a roda ficou grande demais. Aberta demais. E com isso, lógico, dificultou um pouco o entendimento para algumas pessoas. Quando percebi, agilizei com outro ator, tentamos aproximar mais o público. Não teve jeito, precisava ficar estabelecido desde o início do espetáculo. O público não tem essa manha de ficar pertinho, ele normalmente se distancia. Cabe a nós, artistas, aproximarmos mais nosso público, criarmos uma atmosfera mais íntima para que nenhum pedaço da historia se perca com o vento. É muito difícil montar uma roda, e muito mais mantê-la. Sabemos disso. Principalmente quando a praça oferece muitas outras atividades interessantes também. Ficou o aprendizado, no dia 03/10 faremos diferente.
Deixo registrado um puta de um parabéns para todo o elenco, que mandou muito bem. Estamos prestes a comemorar cinco anos de existência e como sempre acontece nessas datas tão significativas, a crise baixou legal. E já estamos crescendo com ela. A energia dos atores, ontem, estava gostoso de assistir. Todo mundo mais dentro do que nunca, presenteando aquele público maravilhoso que nos acompanhou até o final (e os que saíram antes também...). Registro também um agradecimento para o Centro de Cidadania Nós Existimos (local de nossa sede), para a PMBV (autorização da praça), para o jornalista Edgar Borges, que fez a nossa divulgação e como sempre, mais uma vez demonstrou ser um puta de um profissional. A nossa tarefa agora é continuarmos os ensaios de Homens, Santos e Desertores, texto de Mário Bortolotto, com estréia prevista para 17/10, lá no Centro de Cidadania Nós Existimos. Paradinha para o café só em dezembro. E olhe lá!





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sábado, 19 de setembro de 2009

HOJE

Foto: Michele Saraiva


ABSURDÓPOLIS, QUE NOS PERDOE ARISTÓFANES
(Baseado na obra Lisístrata, de Aristófanes)

Texto: Graziela Camilo e Marcelo Perez
Argumento: Cia. do Lavrado
Direção: Graziela Camilo, Marcelo Perez e Renato Barbosa


Elenco:
Adrya Mayara
Graziela Camilo
Ivan Andrade
Marcelo Perez
Renato Barbosa
Renildo Araújo

SINOPSE:
Líderes Mutu-Hutu roubam pedaços do Manto Imantado do Monte Invertido, fonte de poder e instrumento da paz. Com isso o Kauz tomou conta de toda Absurdópolis. A ganância pelo poder dos pedaços do Manto provocou uma corrida intensa atrás de mais pedaços. Joana, uma mulher comum, resolve encabeçar uma greve de sexo com todas as mulheres do país. E decreta que a greve só acabará quando todos os pedaços roubados do Manto Imantado do Monte Invertido forem devolvidos. Com o Manto Imantado de volta ao topo do Monte Invertido, a paz será restabelecida em toda Absurdópolis.


APOIO:
CENTRO DE CIDADANIA NÓS EXISTIMOS

Local:
Praça das Águas
Horário:
20h


Assessoria de imprensa:
Edgar Borges - 9111 - 4001



http://www.ciadolavrado.com.br/



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FUI

fui. não dá mais. já são seis e meia. vou ver algumas imagens na tv. sempre faço isso. não importa a hora que eu deite. e ainda tem o Salinger... maldito! vou folhear esse desgraçado agora mesmo. nem que seja apenas uma página. fui.






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SUICÍDIO


hoje pensei nos suicidas. deve ser uma merda o exato instante em que o cara, não sei, pensa que nada tem mais jeito. no texto do Bortolotto, o homem, se suicida. o estado de Roraima tem o maior índice de suicídios do país. na proporção, lógico. tive um projeto contemplado pela FUNARTE, em 2008, e que fala do suicídio de jovens. a estréia será em 2010. esse ano não foi possível, me suicidei de montão... mas no próximo, com certeza, ele vai sair do computador. é uma foda, não é? suicídio? caralho! esse momento exato de que falo, de forma alguma conseguirei abordar em meus textos. é só uma impressão do que imagino. o momento mesmo, deve ser algo de outro mundo. quando jovem, até já pensei nessa saída. quem não pensou? só mesmo os jovens que tiveram uma vidinha arrumada, sem percepção dos seus conflitos é que, de repente, não pensaram nisso. eu pensei. hoje, isso é um drama. aos 40 não dá pra pensar em me mandar desse jeito. não tem nem graça, certo? como na peça do autor citado acima, - tô fudido! tô careca de saber que existem outras saídas. mas confesso que tem vezes que me mato. tem vezes que me suicido. nem sei se isso é possível, ou permitido pela gramática normativa. mesmo sabendo que tô cagando e andando pra ela. puxo a corda amarrada ao meu pescoço sem dó nem piedade. nada literal, senão, essas palavras seriam redigidas por um fantasma. o que não é o caso. mamãe...papai...não se preocupem, são apenas metáforas. pode parecer esquisito, mas tento entender os suicidas. os jovens. pensamentos radicais. sem possibilidades de outras saídas. a decisão sem volta. pra você entender melhor o que quero dizer, tá nascendo um puta de um dia lindo lá fora. olha só que contradição! entendeu? tudo bem, antes mesmo que você entenda, a corda já tá pendurada faz tempo. o salto, como reza meu amigo André, não tem volta. seja ele pro que penso ser vitória...seja ele pro que penso de fracasso...não consigo recriminar essa gente cheia de coragem e com tão pouca percepção da realidade. ou, não sei, com a real percepção da realidade. coisa que jamais pensamos em pensar...realidade...quem sou eu pra falar nisso? quando resolvo dormir, mesmo sabendo que não posso, e não devo me dar a esse luxo, me mato mais um pouco. dormir, diante de tanta coisa pra falar, escrever, discutir, viver, experimentar... é como se eu pulasse da escada com uma baita de uma corda amarrada ao meu pescoço. no edifício que morei em Vila Isabel, teve um cara que se matou assim. e não era jovem. mas isso eu nem posso recriminar. só fico com aquela pergunta desgraçada na minha cabeça, por que ele demorou tanto tempo pra tirar o time de campo? acho que sofrimento mesmo, sofrimento de verdade, deve ser algo assim. sinistro, maluco!






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E O DIA MOSTRA A SUA CARA...



uma amiga me disse hoje, - Marcelo, tem pessoas que enxergam em você alguns valores delas, já perdidos, por isso a implicância com você. não sei, até concordei com isso. o foda não é exatamente o que elas pensam, mas o que eu posso me tornar, se eu não ficar com meus olhos abertos, digo, antenado no mundo lá fora. de maneira alguma eu devo me distanciar de minhas referências. não quero. não devo. não será saudável para a arte que penso pra mim. já tá amanhecendo...e continuo pensando....não posso e não devo fazer menos do que faço. não será saudável. compreende?





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ARTE NO EXTREMO NORTE


tô acordado. ainda. mas não sou o único. o site da Cia. do Lavrado marca 28 visitantes on-line (voltei aqui pra corrigir, na verdade, agora, são 54). agora me diz, o que é que esse povo tá fazendo acordado até agora? em Roraima são quatro e vinte da madruga... hoje resolvi deixar a cara amarrotada. e o preço disso é a insônia. sou assim mesmo. chega uma hora que não consigo mais dormir. tem vezes que acordo no meio da noite. e também não consigo mais dormir. não fico mais puto por isso. tenho 40. nada mais será como era antes. sei disso perfeitamente. quer dizer, não tão perfeito assim, pois de outro modo, estaria na cama. roncando pra caralho. são escolhas. resolvi que vou dormir lá pelas 8h. é isso. não consigo domar minha necessidade de escrever. umas tecladas no word. outras tecladas por aqui. sou feliz assim. pelo menos acredito que sou. ou me ensinaram que sou feliz assim. sei lá. são tantas regras. tantas necessidades. tem vezes que nem acho que necessito tanto assim. mas a vida me faz acreditar que sim. então escrevo. tenho um compromisso importante. na verdade, já até dei início a ele. ler O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger. J.D.Salinger. tenho vários inícios no currículo. mas hoje, às cinco da matina, vou pegar de jeito esse livro. ensaiamos Homens, Santos e Desertores, do Mário Bortolotto. esse livro tem tudo a ver com essa peça. o Caulfield tem muito do garoto, personagem do Bortolotto nesta peça. o Bortolotto é um puta de um dramaturgo. vivo. muito vivo mesmo.o cara é bom pra caralho. digo isso de cadeira, pois já li, sei lá, umas 10 ou 15 peças dele. nem sei mais. acho que li três livros, com várias peças e um romance. me identifico muito com a dramaturgia dele. o blog dele e outros que acompanho são exatamente o meu link com o mundo fora de Roraima. não posso perder esse vínculo. as coisas por aqui são muito paradas. o pensamento dos artistas daqui são, quase primatas, se é que você me entende, e sem querer ofender os daqui. não temos referências na música, dança, teatro, artes plásticas, audio-visual, enfim, não temos ninguém aqui com projeção nacional. poucos conhecem os que fazem arte por aqui. só isso. e acredito que a falta de contato com o mundo, fora Roraima, faz uma falta tremenda e influencia demais os trabalhos realizados neste estado. tem muita gente boa. mas muita gente boa sem referência externa. sério. isso tá nos trabalhos realizados. nem me sinto detonando ninguém. é pura realidade. muito pouco chega por aqui. gostaria muito que o Mário Bortolotto visitasse esta terra, mas como ele me disse outro dia,(mais ou menos isso...)- só se vocês bancarem a passagem... isso é muito difícil, se nem pra sair daqui a gente consegue...precisamos, sempre, de pessoas bem sucedidas na arte por essas bandas. o povo daqui precisa entender que é possível, com um puta de um sacrifício viver de arte. é um povo desacreditado. com tantas dependências... não dá pra ter arte de verdade quando fazemos tantas concessões. mas já estou convencido que todos os artistas do estado de Roraima são vencedores. independente de política, independente se não gosto da postura de alguns, dane-se, são todos vencedores. e pra que eu mantenha essa minha admiração, consegui entender que preciso ficar out. demorei, mas entendi. cada um faz a arte que pode fazer. cada um defende o seu. de outro modo, ninguém consegue fazer nada. e não é culpa dos gestores. muitos sonham em ser artistas. os gestores. mas a gestão não permite isso. não acredito ser possível ser artista e ser gestor. o gestor sempre virá na frente. mas reconheço, também, o trabalho artístico de alguns gestores. sonho com uma terra fabulosa. um lugar encantado. com muito espaço para os ideais. mesmo sabendo que isso é pura utopia. mas é o estado que escolhi pra viver. vou fazer o meu melhor. sempre. mesmo sem desejar entrar na regra, acabo rezando a missa como os demais. de outro jeito, só se eu me mandar daqui. e isso tá longe de acontecer. mas reconheço que não é algo impossível. por enquanto, me esquivo das rédeas o máximo que posso. e apesar das minhas falas ásperas. sem ressentimentos. isso sempre!






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