terça-feira, 16 de julho de 2013

FEITO MÚSICA






dentro de mim
você sou assim




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CASTO






eu ando sonhando com uma vontade louca
de me enfiar pelos teus poros melados
escorrer por todo o seu corpo suado
até ficar grudado ao teu sexo
eu ando sonhando com uma vontade louca
de escalar o teu corpo com a língua
te engolir como um Cristo perverso
debruçado em suas costas de braços abertos
eu ando sonhando com uma vontade louca
de esfregar a minha pele em sua boca
arrancar do teu grito o infinito
de cuspir na tua cara o tesão




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EM SUAS MÃOS





os lábios que tanto me excita
a boca absorve e o dente mastiga
castiga
e eu
desesperadamente de quatro
assumo tudo e me esqueço
é o teu sexo que me arde
é o teu sexo que me infesta
é o teu sexo que me rasga





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sexta-feira, 5 de julho de 2013

RECEITA NO VERSO





Não há receita no verso!
Só os restos de um grito
Que traz de trás da palavra
O avesso ao inverso
Um suplício
Objeto falado inscrito
Algo pensado
Rabisco na rima do risco
No vício de um alívio
In-des-cri-tí-vel
O crível cravado na folha
Ideia espocada da mente
Na melhor ex-porrada na cara
O falo na fala minha
Me cagueta e me faz perder a linha
E o que mais me incomoda
Instiga
É a resposta!
Felizes são os convidados para o asseio do senhor
Que morrem aos poucos
Com seus ouvidos calados
Compartilhando aos embalos
De uma rede transformadora
De não à opinião
Curte o corte no córtex alienado
Assim fez-se como um coito afoito
 Interrompemos a sua programação...
Tudo é indefinido, Tudo é indefinido, Tudo é indefinido
Um imenso vazio infinito
Num minúsculo espaço preenchido
Desperdiçado como um natimorto
Só que vivo!
Pois te digo,
Não há receita no verso, amigo
Não há remédio limite ou abrigo
Não há verbo definitivo
Só é o que resiste
À margem das sombras e nos restos,
Enfim,
É o que há mais de mim
Sempre existe alguma coisa fora de controle
Pense nisso
Logo
Insisto.



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COMO UM SUSPIRO





Como eu gosto do teu gozo
Trincado entre os dentes
Gemendo em meus ouvidos.
Mas que doida sensação de mergulho no abismo
Tão esquisito quanto o êxito e o tiro
Premeditado e preciso como um suspiro.





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POEMAS PERFEITOS





Poemas inteiros
Em tiros perfeitos
São feitos
Sem a menor possibilidade
De explicá-los direito
Os outros,
Não dão nenhuma satisfação.




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PARADOXO




É o tempo
Não os passos
É o buraco no espaço
Entre o beijo sonhado
E o descaso
É o ensaio do abraço
Que nunca virou ato falho
Misterioso como o sorriso de Lisa
Inexplicável como alvo de raio
É tão platônico
Que chega a doer por não ser




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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

TOCA RAUL!



Você pode até dizer que é um assunto batido e coisa e tal, mas ainda acredito que vale um comentário, ou melhor, um grito de socorro. Posso parecer um indivíduo intransigente, que não curto muito a aproximação social, mas veja bem, a verdade é que no fundo eu não aguento mais parar em um posto de gasolina e de repente ser obrigado a ouvir uma música altíssima de um carro com uma caixa de som imensa, dessas potentes de baile. Nada contra a escolha musical do indivíduo, apesar, de nesse caso, eu detestar e muito a trilha sonora que tocava no referido automóvel. Existe uma Lei que me protege! Pelo menos essa é a sua essência romântica na prática, disse um amigo meu outro dia curtindo com a minha cara.
O fato é que eu estou careca de saber que as Leis existem para serem manobradas e nem preciso ser estudante de direito para compreender isso. A vida me ensinou assim. Basta olhar para a realidade política do nosso país. Já foi o tempo em que eu ficava emocionado ao ver uma mulher se derramando em lágrimas, mesmo em Rede Nacional. Por favor, hoje não me comove mais.
Antes de mergulhar no mérito da questão - e nem sei se isso vai acontecer por aqui – insisto nesse assunto somente por curiosidade, talvez, uma forma de desabafo. Encare isto do jeito que preferir. Mas vamos ao ocorrido.
Ontem, ao estacionar minha moto no posto de gasolina do bairro, bem ao lado de um sujeito esquisito dentro de seu carro com um som infernal, ao invés de fazer cara feia - como das outras vezes - resolvi pegar um guardanapo e observar o indivíduo atentamente como se fosse um objeto de pesquisa. Então, comecei a escrever algumas razões possíveis para tal comportamento um tanto quanto invasivo do motorista. E confesso que foi muito mais divertido e menos doloroso de engolir aquele sapo.
A primeira opção, e acho que todo mundo já pensou nisso, é que o cara deve ser insatisfeito com a sua vida sexual. O som desesperadamente alto do seu carro deve ser algum tipo de compensação. Quanto menor a ferramenta, mais alto o volume. E esse era tão alto que cheguei a pensar nos pobres eunucos da vida – será?
Pensei também na infância do coitado. E logo deduzi que ele devia ser aquele moleque imbecil, que sempre ficava no time da próxima rodada quando escolhíamos os garotos para uma pelada no campinho nos fundos da escola. Como eu temia isso na minha época, e por conta desse temor, eu chegava cedo com a minha bola novinha entre os braços. A moçada adorava jogar com uma bola zerada. E eu nem passava na seleção, já estava dentro. Gastei muito dinheiro do meu pai com essa brincadeira.
Imaginei, ainda, o malandro na adolescência, naquela fase beirando os 18. Sem carro, sem moto e como consequência, não devia pegar ninguém. Olhei bem no seu rosto, lógico, sem deixá-lo perceber que eu o encarava, e constatei. Ele tinha todo o jeito de que passou grande parte da sua precoce vida nos cinco contra um - se é que você me entende. Com certeza devia ter muito pêlo na palma da mão, mas eu nem quis investigar essa lenda.
Depois de algumas risadas, um pouco mais relaxado, continuei a lista sem nenhuma piedade do rapaz. Na verdade, já havia abstraído o maldito barulho ensurdecedor do seu veículo e completamente motivado pela minha desenfreada imaginação, mergulhado até o pescoço na tal lista, cheguei à conclusão de que podia se tratar de um caso crônico de surdez. Tentei identificar a linguagem de sinais, em meio à conversa muito gestual do motorista com a sua acompanhante, mas não foi nada revelador. Ouvi dizer que a exposição exagerada do ouvido humano em um caso como este, pode sim provocar a perda temporária ou total da audição. Mas não era o caso.
Por fim, sentado na minha moto e vendo o carro com som infernal indo embora, cheguei à velha máxima: gosto não se discute, lamenta-se. Afirmo o fato sem a menor cerimônia, por mais que você pense se tratar de uma conclusão clichê. E a vida não é isso?
Quando liguei meu veículo e estiquei o pé para passar a marcha, em um susto, estacionou ao meu lado outro carro. Olhei discretamente, atitude normal de quem interage na sociedade, e como se estivesse planejado, como se o sujeito tivesse combinado com o motorista anterior - foi questão de segundos – o carona desceu do carro, um fusquinha amarelo gema de ovo, totalmente fechado com adesivos coloridos variados, abriu o porta malas e em seguida o seu parceiro ligou o rádio. Imediatamente parecia que o baile nunca havia terminado. Foi um choque geral, o povo todo em volta congelou. O motorista estava bastante animado, ensaiando alguns passinhos no ritmo do som altíssimo do seu carro quase alegórico. Eu simplesmente desliguei a moto, conformado, e peguei mais um guardanapo. Pelo volume da música que estraçalhava os ouvidos alheios, a minha lista anterior parecia apenas o começo. E citando aqui outra máxima, eu me animei e gritei: 
- Toca Raul!




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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

CARNE HUMANA NA VITRINE



Outro dia comprei uma discussão casca grossa demais. Um amigo do mais alto naipe, super conectado com as novas tecnologias de comunicação e um tarado na rotina Facebook, puxou uma conversa esquisita sobre o Big Brother Brasil. Meteu o pau legal. Não deixou de fora nem mesmo o Bial – e nesse caso, quem deixaria, não é?
Estranhei o diálogo iniciado, pois o parceiro em questão é um tremendo nerd nas discussões. O verdadeiro dono da verdade – assim ele pensa. Mandou o verbo na lata, sem nenhuma provocação. Disparou sua metralhadora para todos os lados e nem se importou com a fisionomia dos que estavam presentes. Olha, quando conversamos é sempre interessante percebermos a feição dos que nos ouvem. Elas podem ser bastante reveladoras.
Não existe uma regra e coisa e tal, mas quando estou em uma roda de conversa com amigos, no mínimo tento perceber se o meu assunto segue em boa direção. Linguagem corporal entende? Depois que exploraram esse quesito preconceituoso nas entrevistas de emprego, menosprezando a possível capacidade do candidato, é preciso ficar atento. Já vi muita gente dançar. Com um simples balanço de cabeça para o lado, na tentativa de espantar um mosquito, o conceito do indivíduo pode ir por água abaixo. Fico imaginando o entrevistador, caladão, com cara de Freud. E o mosquitinho desgraçado zunindo na orelha do entrevistado.
- Hum... balançou a cabeça pra esquerda. Por que não pra direita? Tá reprovado! Esse com certeza é problema...
Depois do meu amigo tanto investir na depreciação do maldito Reality Show, a moçada da roda continuou em silêncio, assim, como se estivesse acabado de passar um anjo. Saquei a cara do povo, tudo fingimento. A impressão que dava era que nem tinham ouvido o colega. Alguns, pela falsa aparência, navegavam em Marte ou Júpiter. Mas ninguém me tira da cabeça que eles estavam de olho na Terra, doidos por uma fofoca virtual daquelas. De qualquer forma, eu não sosseguei e o questionei.
- Ei, fulano – não vou entregar o santo pra não queimar o filme da criatura - não me ligo nessa programação, na verdade, na minha casa não pega esse canal, mas olha só, você falou e eu fiquei pensando aqui, qual a diferença do Big Brother para o Facebook, que tanto você ama?
 O silêncio continuou. Nossos amigos disfarçavam na maior cara dura, como se estivessem voando pela Via Láctea. Eu já tinha sacado que por nada desse mundo entrariam naquele debate. De repente, o falador saltou da cadeira como um cometa.
- Facebook? Mas eu não falei disso. Facebook é Facebook! Uma ferramenta extremamente necessária para qualquer ser humano que deseje estar conectado hoje em dia.
Então eu disse.
- Olha, parceiro, o Big Brother, assim como o Facebook, propõe uma exposição descarada. É carne humana na vitrine. No fundo, tem muita gente disposta a pendurar a sua carne, expor o quanto a sua vida pode ser bacana. Mesmo sabendo que isso é história pra boi dormir.
- E daí? Cada um faz com o seu tempo o que bem entender.
- Concordo. No caso da Rede Social, a gente conecta lá, como quem não quer nada e de repente já era. Estamos mordendo os lábios de raiva diante de tanta declaração otimista, uma publicidade exagerada do quanto que a vida pode ser bela. E como te disse, a vida não é tudo isso...
- E daí? Cada um na sua, não é?
- É o que eu tô dizendo, cidadão. Cada um na sua e todo mundo ligado na vida dos outros. Então, igualzinho ao Big Brother. O Carlinhos mesmo, ontem no Facebook, disse que o pai havia falecido. Logo em seguida, tinha um monte de gente curtindo a situação. Tá legal, Big Brother é careta, mas Facebook é massa?
O parceiro fulano ficou doido, quicou de um lado para o outro, foi um verdadeiro Big Bang. Eu nem sabia o que fazer diante daquela convulsão. Ele gaguejou, ensaiou algumas palavras, mas não conseguiu esboçar nenhum argumento que me convencesse de que eu estava errado. Passou uns segundos e ele se mandou.
Meus amigos se omitiram da discussão, quer dizer, bem no ápice do diálogo fervoroso eles estavam lá, apertando freneticamente seus celulares. Provavelmente estavam colocando a nossa carne na vitrine. Parecia até que nos comandavam pelos seus aparelhos, como num game.
Depois de um tempo, eu me vi sozinho no ponto de ônibus. Somente uma chuva rala me acompanhava. Não passava uma alma pela rua. Saquei meu celular, conectei–me no Facebook e então, sinceramente, dei meus pêsames para o Carlinhos. E imediatamente um bando de gente curtiu aquilo. É ou não é carne humana na vitrine?


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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

SEXTAS CRÔNICAS


Continua tudo muito corrido... a vida não dá trégua... ainda mais nessa época aflita de conexões e sites e blogs e facebook e twitter... enfim, são tantas ferramentas de comunicação, que me sinto dissolvido lentamente dentro desse mundo virtual. E o pior é que nem sempre essa comunicação é eficaz. O Fanzine RECEITA NO VERSO surgiu a partir dessa reflexão, e por falar nisso, esse mês tem Fanzine.
Já foi época que manter esse blog atualizado era uma meta. Por enquanto, retomo o exercício das crônicas. Somente nas sextas. Afinal de contas, as sextas sempre foram crônicas.

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terça-feira, 25 de setembro de 2012

E a vida continua... tá tudo muito corrido. A Cia. do Lavrado realiza no mês de outubro a II OFICINA LIVRE DE TEATRO. A turma tá quase lotada. E vamos em frente... o Fanzine RECEITA NO VERSO de agosto tá na rua. Sei que já estamos quase no fim de setembro, mas com a greve da UFRR a coisa ficou devagar. Mas, agora, vamos colocar o trem no trilho. A ideia é continuar com o fanzine e fazer com que essa publicação vire patrimônio do curso de Letras. Então, é isso. Em breve, mais notícias. É isso... 






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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Pra não perder a viagem...


ELA
ATÉ AGORA
NADA
EU
INFINITO AMOR
NADO


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Então, a vida continua...
O fanzine RECEITA NO VERSO também continua. Já estamos na quinta edição, embora eu não tenha colocado por aqui os outros, o fato é que a vida tá bem corrida, mas o fanzine continua. Esse mês vamos para a 6ª edição. Depois coloco por aqui os originais. Me deram a ideia de fazer o esquema virtual também, mas não tô com tempo pra isso agora.
A Cia. do Lavrado se reuniu dias desses e vamos em frente. Em breve mais notícias de espetáculos, por enquanto, vamos realizar a II OFICINA LIVRE DE TEATRO, em outubro.
Fechamos, também, uma parceria com o Boa Vista Play, um parque de diversões muito bacana e vamos realizar três oficinas por lá. Aos sábados, 9h às 11:30h, aos sábados, para crianças de 08 a 11 anos. E às quartas duas oficinas, de 9h às 11:30 e de 15h às 17:30 para adolescentes de 12 a 15 anos.
O grupo tá bacana, temos uma moçada nova chegando e com muita vontade de fazer teatro.
É isso. Em breve mais notícias.

APOIO: LB CONSTRUÇÕES e BOA VISTA PLAY

Abração
Marcelo Perez


sexta-feira, 18 de maio de 2012

FANZINE LITERÁRIO









O Fanzine Literário RECEITA NO VERSO de maio já tá na rua. Comecei a distribuir na biblioteca da UFRR, na quarta (16), acho que foram 100 exemplares. A ideia do contato físico muito me instiga. Olhar na cara dos possíveis leitores, dar bom dia, oferecer a palavra, isso é muito excitante. Esse é o barato da transformação. A possibilidade de quebra em uma rotina, um intervalo que seja para revigorar, rearrumar, bagunçar mais o pensamento. Eu falo aqui é da minha transformação, a que eu vivencio todos os dias. Acho que é isso. Confesso que a cada dia dentro desse projeto eu descubro mais uma razão para continuar.
Esse mês tem mais gente no RECEITA NO VERSO (e tá aí outra razão), a Ágda Santos, o Edgar Borges, a Kywsy Santos, o Rodrigo Mebs e a Zanny Adairalba são os colaboradores desta edição. Só gente bacana. Gente que produz direto, que tá sempre escrevendo, gente com quem eu me identifico. Dá uma olhada na imagem e saca só o que eles escreveram. Na verdade os primeiros colaboradores vivos, pois na edição passada mostraram a cara no fanzine o Leminski e o Bukowski. Acho que o fanzine também é isso, essa possibilidade de ampliar o diálogo geral. Hoje eu ouvi um troço muito legal:
- ele é pequenininho, tem poucas páginas, mas não dá pra ler tão rápido assim... tem coisa que eu preciso ler várias vezes...



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quinta-feira, 10 de maio de 2012

TRAVALÍNGUA




VERSA O VERSO INVERSO
E
EM VERSOS VERSA O VERSO



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sábado, 28 de abril de 2012

A MATADORA DA LIXEIRA DO 3º ANDAR


Paty Fat era uma menina extremamente engraçada. E se não fosse isso, seria mais uma gordinha sacaneada por todos do bairro. Na verdade, acontecia o contrário. No primeiro vacilo, ela entrava de sola, curtia com a cara na maior cara dura. E mesmo distante de ser uma gostosa na primeira encarada, despertava um tesão maluco nos meninos e a ira nervosa nas meninas mais descoladas. Não se conformavam com as armas utilizadas pela Paty para atrair a atenção dos rapazes. Usava e abusava dos peitões estufados no decote em bandeja. Provocava geral com um forte vermelho em sua boca Angelina Jolie, combinando com as unhas imensas que arranhavam o pulso em um simples aperto de mão. Sem falar da minúscula saia, que valorizava a dupla bundapernão, aguçando a imaginação até dos mais velhos, dos que não tinham mais idade para tal investida dentro da legalidade. Paty Fat não alimentava paixões platônicas e nem perdia seu tempo com perfumarias. Sabia das frágeis oportunidades e por isso se exibia ao limite. Sempre esperava atenta pela grande chance, que geralmente acontecia após cinco minutos de conversa com o rapaz desejado. Não perdia tempo, mergulhava boca adentro de suas vítimas, de tal modo que não houvesse chance de respiração. Uma verdadeira matadora. Mesmo sem a aprovação das amigas frustradas e a não propaganda dos machos rendidos, ela era o máximo. Até aqui tudo tranquilo, uma menina fora dos padrões, dando a volta por cima e arrancando da vida todo o possível. Tudo seriam flores se não houvesse um tal Piranha para atravancar o enredo. Piranha era um pegador veterano, cara bonito, um magro elegante que deslizava o verbo em veneno no ouvido das meninas do bairro. Um tarado de carteirinha. Vivia espalhando pela rua que jamais sairia com uma gordinha como a Paty e mesmo diante de toda a antipatia aparente, evitava ficar perto para não dar asas à sua curiosidade. Apesar dos comentários sórdidos na boca miúda, preferia manter a fama de nunca ter sido pego pela temível matadora. Isso amaciava o seu ego e o mantinha na linha de frente como o cara mais sagaz do bairro. Em uma tarde dessas, em que a turma toda estava reunida nos fundos do único prédio da cidade, ponto de encontro dos jovens aos sábados para assistirem ao jogo de vôlei dos mais velhos, Paty Fat apareceu decidida a mudar o placar do seu game contra o safado do Piranha. Ela surgiu poderosa entre os carros estacionados na calçada. Iluminada pelo foco do refletor entortado da padaria de esquina. Bem no caminho de um sopro de vento que valorizava os longos cabelos oxigenados. Espalhou o cheiro da maldade por todos os lados. Até o tempo parou encantado. Em seguida, foi um zunzunzum, um falatório desordenado, um suspense apontando o Piranha, que estatelou os olhos arregalados, engoliu seco e se agarrou com toda a força em sua medalhinha de São Jorge. A engraçada gordinha distribuiu sorrisos e cumprimentos. Foi passando e deixando sua marca inconfundível, uma simpatia irresistível, uma alegria contagiante, mas sem perder o foco em sua próxima vítima, a mais difícil, a mais ensaboada. E foi nessa intenção que ela estancou ao lado do sujeito. As pernas do moço bambearam. O olhar só fingia direção, dava para sentir o descompasso frenético no coração do rapaz. O que vem a seguir, o Piranha jura que planejou cada detalhe, até mesmo o aparente descontrole. Já Paty Fat diz que foi como tirar doce da boca de criança. Mas vamos aos fatos. Paty sabia de algumas manias do rapaz e uma delas era o cigarro. Ele não tinha o hábito de comprar, mas sempre dava um jeito de filar de alguém. E nesse dia, bastante agitado com a situação, ele caminhou por entre os amigos em busca de um e por azar do menino ou como ele mesmo disse - foram apenas peças encaixadas -, ninguém tinha para lhe dar. Ele, então, parou ao lado da Paty Fat, ainda nervoso e percebendo o revés em que se metia. E ela, disposta a agarrar sua presa, nem que fosse pelo pulmão, mandou a letra pegando fogo para o rapaz.

- eu tenho um maço fechado...
- me dá logo um! Disse todo grosseiro, mantendo a pose de bad boy.
- deixei escondido na lixeira do 3º andar... bora lá?

Foi a espetada fatal no touro cansado. Ou a simulação perfeita nas costas da matadora. Subiram na encolha, sem serem vistos. O prédio não tinha elevador e assim, propositalmente ela subiu as escadas na frente, quase golpeando a cara do oponente a cada passo rebolado. Parou na porta da lixeira. Ele estacou no último degrau da escada, ficou na espreita, não queria ser visto naquela situação. Ela entrou na lixeira sozinha, arriou a calcinha e em seguida colocou apenas a ponta do rosto para fora.

- vem... o cigarro tá queimando aqui dentro.

Ele entrou ligeiro na sequência. E o que aconteceu lá dentro, eu não tenho a menor ideia. Mas ele disse que fumou um cigarro e a Paty tentou agarrá-lo e ele deu uma volta nela, e ela tentou por um beijo e ele disse que não e ela partiu para cima e ele saiu batido da lixeira com o maço de cigarros cheinho, sem nem precisar dar um beijo no rosto da gordinha, que ainda na versão dele, levou um empurrão e se espatifou no monte de lixo espalhado pelo chão. Já a Paty Fat, contou orgulhosa que ele fumou um cigarro e tentou agarrá-la e ela deu uma volta nele, e ele tentou por um beijo e ela disse que não e ele partiu para cima e ela disse que só ficaria com ele se ele confessasse que era louco por ela e que a amava de paixão. E depois de ouvir as declarações do rapaz, ela fez o que quis e até o que ele não quis. Deixou - o derrotado, sentado no monte de lixo espalhado pelo chão, sem nem entender direito o que acabara de acontecer. Foi o que ela disse. O que eu posso garantir foi que ela desceu primeiro, apesar de eu ter dado uma saída no intervalo do jogo, mas com certeza eu a vi primeiro lá na rua. Tem gente que diz que o Piranha desceu na frente, todo marrento e arrotando satisfação. Mas vai saber o que aconteceu. Eu só sei que a Paty Fat tá louquinha por mim. Tá me dando um mole desgraçado. Mas eu não quero agora. Tô sossegado. Os imbecis lá da rua ficam me sacaneando, dizem que eu tô viajando, Forrest Gump, que a Paty nunca que iria sair comigo, um moleque dessa idade. Mas vai saber se já não saiu... E isso, só se eu te contar.





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segunda-feira, 16 de abril de 2012

RECEITA NO VERSO








No dia 11/04 começou a circular na UFRR o fanzine literário RECEITA NO VERSO. Essa é uma das possibilidades de intervenção dentro do campus que estava engavetada faz tempo e que agora no último semestre do meu curso de Letras/Literatura eu consegui colocar ação. Escrever nunca foi uma tarefa simples e muito menos entender como se dá esse processo em minha vida e essa é uma das razões que me faz continuar.
Nesse semestre pretendo lançar meu primeiro livro de contos. Isso seria uma tarefa fácil, acredito, se escrever não estivesse ligado ao meu processo de crescimento como indivíduo, se escrever fosse algo que eu pudesse explicar apenas com a palavra inspiração, se escrever não tivesse essa faca no pescoço me lembrando a todo momento que eu posso fracassar, e não digo na escrita e sim na vida. O processo de escrever é tão esquisito que volta e meia eu me percebo tentando boicotar a escrita, tento fugir como o diabo foge da cruz. É assim que escrevo, muitas vezes para não fracassar.
Enfim, Fanzine é uma publicação independente, de baixo custo, xerocada, normalmente editada por alguém que curte muito um determinado assunto e deseja dividir as suas ideias. Entendo o Fanzine como um instrumento de comunicação muito poderoso. Por ser uma publicação de bolso, trazer uma linguagem diversificada, com textos curtos e digrátis ele possibilita um contato direto entre escritor e leitor. O livro proporciona isso, mas nem todo mundo compra, aliás, nem todo mundo lê. A internet proporciona isso, mas nem todo mundo acessa blogs e sites de literatura, ainda mais depois da febre FACEBOOK e TWITTER, no qual as pessoas investem um tempo enorme e não reservam espaço para outras leituras. Não sou contra essas ferramentas, apesar de ter me afastado delas por acreditar que o conceito de Rede Social não funcionava na minha vida, pois quando eu deixo de fazer um comentário com quem tá do meu lado, fisicamente, para inserir esse comentário em uma rede virtual, eu acabo por me isolar, o contato não acontece. É um tiro no pé.
Escrever em um Fanzine até me pareceu uma ideia nostálgica, diante dessas tecnologias todas, Internet, Ipad, Iphone, mas ainda acredito na sensação indescritível do livro nas mãos, e no caso dessa publicação independente, o leitor com um mínimo de curiosidade não vai ter muito trabalho. É só abrir e ler. E aí, quando isso acontecer, a comunicação foi realizada. E o que isso pode gerar? Eu não tenho a menor ideia. Mas continuo escrevendo. 





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domingo, 25 de março de 2012

O INVERNO SEMPRE VOLTA



O corpo estava imerso por mais de uma hora na banheira. Apenas a cabeça fora da água o sustentava. Levantou-se com as dificuldades diárias, como se todos os dias amanhecesse faltando pedaços. O juízo pesava uns 10 kg, a boca ressecada colava e o bafo espantava a escova e a pasta. Mais uma vez mastigado. A razão não sentia pena e a culpa era de arrancar os braços. Até anoitecer ele sempre sofria. Arrastava-se pela casa como uma barata descontrolada fugindo da luz. Acabava estacionado na poltrona, de frente para a janela fechada, com uma garrafa de vodka aos tragos, colecionando baganas e fumando cigarros. Um espectador esfomeado para a próxima sessão. E quando tudo caminhava para o fim, ele deu um pulo felino, abriu a cortina - louco de paixão! - e recebeu a lua no meio da lata. Estava conectado. Emborcou o resto da garrafa e vagueou pela sala assobiando uma melodia qualquer, esbanjando atitude. Pegou outra vodka em cima do armário, escolheu com muita paciência a trilha das próximas horas – Inocentes – e partiu para a geladeira sem nenhuma culpa. Salaminho, azeitonas e um queijo fatiado fedido de outros dias. Foi quando o telefone tocou.


- fala!
- é o Roberto Teles?
- sim, meu amor, quem procura?
- eu sou a Takada, você me ligou na madruga...
- liguei?
- ligou sim, não é você que precisa de mulher? ou já se resolveu? Eu já cheguei na área, mas tô perdida....
- e quem não tá, meu amor...
- eu já tô na rua, mas não acho a casa...
- é a que tem dois números dois apagados...
- já chego aí.
- não duvido disso.

Ele foi até a janela. Deu uma espiada. Não havia uma alma para contar a história. A rua não parecia uma moça com boas intenções. Ajeitou o cabelo. Tomou uma dose caprichada, virou o pau para o lado esquerdo e respirou fundo. Foi quando ouviu as batidas na porta. Deu uma olhada pelo canto da cortina e viu uma oriental baixinha, com poucos peitos, e toda sorridente.

- e, aí, gostosa? Tava difícil?
- muito. não costumo vir pra essas bandas....
- sei...
- sério, eu nunca andei pela periferia.
- aqui também tem pecado, meu anjo.
- e é por isso que eu tô aqui!
- gostei disso.
- olha, a gente pode fazer diferente...
- acho difícil, meu amor, mas de qualquer forma, trás essa bucetinha oriental pra dentro e vamos ver o que a noite promete.

Ele deixou a japa girl entrar. O que ela não tinha de peito, tinha de bunda. E estava empinada em um salto alto, pronta para derrubar um planeta. A roupa parecia um disfarce, se a encontrasse pelas ruas jamais imaginaria se tratar de uma putinha de anúncio de orelhão. Mas esquisito mesmo era o nervosismo fora do normal para uma puta sabida. Ele virou mais um gole e lhe ofereceu a vodka.

- não. obrigado. eu não bebo.
- como?!
- eu não bebo.
- nada?
- nunca.
- sério?! não bebe em serviço ou nunca bebeu?
- nunca bebi.

O excesso de nervosismo da putinha, ele até que podia dar conta. Talvez ela estivesse assim porque nunca tinha andado naquela região, e o povo adora colocar o terror, como se a periferia fosse o elo perdido, mas daí a engolir que ela não bebia, isso era demais para a sua compreensão. Lembrou de uma vez que saiu com uma puta velha e passaram a noite bebendo álcool 96 com laranjada, ficaram tão chapados que a rampeira saiu do quarto do motel, subiu em cima do carro, derrubou a garrafa de álcool na cabeça e em seguida acendeu um cigarro. Ela desapareceu em uma sequência explosiva cinematográfica no estacionamento. Quando se tratava de putaria a parada era mais punk, não tinha esse negócio de não faço isso e não faço aquilo, mas de qualquer forma, a coisa não encaixava e ele resolveu ser mais cauteloso. A japinha, ainda vestida, parecia uma colegial curiosa.

- você mora sozinho aqui?
- sempre.
- tua casa é bem legal. Parece até casa de artista...
- é?
- os quadros na parede... pelo chão..nossa, em toda parte...
- quando eu não tô fudendo eu pinto.
- tem pintado bastante....
- deixa de onda, qual vai ser?
- vamos conversar mais um pouco, eu quero te conhecer melhor...
- olha, meu amor, posso até passar a noite inteira nessa contradição, mas só vou te pagar o tempo que eu estiver dentro de você.
- tá bom.
- tá bom é o caralho! Que pôrra de puta é você?

Ele segurou o queixo da japa e arriscou um beijo forçado. Ela resistiu, tentou fechar a boca, mas ele a apertou com mais força e lhe deu uma porrada bem dada no meio da cara. Ela cambaleou como um João bobo, mas ele a trouxe de volta lhe apertando o pescoço bem forte. Por uns instantes a menina ficou imóvel, como um passarinho na palma das mãos que o amassara. Dessa vez, a razão não chegou tarde demais. Ele, assustado com o quadro que pintara, jogou a oriental no chão e ainda ofegante, correu pela casa fechando as janelas, observando antes se havia alguma orelha do lado de fora. A japona rolou no meio da sala, o corpo para um lado e a bolsa desmantelada para o outro. Do jeito que a situação se formara, ela estava fudida. Depois de isolar toda a casa, ele arrastou a mesa e as cadeiras, abrindo espaço na sala, estava decidido a ir em frente, faminto e cego, sem doces intenções e...

- que porra é essa? Tropeçou nas coisas da japinha que ficaram espalhadas no chão. E ela, já recuperada dos apertões lhe confirmou.
- é minha bíblia.
- tá de sacanagem...
-não mesmo. Eu não saio de casa sem ela.
- que merda de puta é você que não bebe mas reza?
- e rezo sim. Agora mesmo, antes de bater em sua porta eu dei uma olhada em coríntios 6:13, 18 mas o corpo não é para a prostituição, mas para o senhor, e o senhor para o corpo... Fugi da prostituição. Qualquer outro pecado que o homem comete, é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo.
- só me faltava essa... ei, minha criança, se ajoelha aqui pra fazer uma oração. Ele colocou a bíblia bem nos seus pés.
- moço, eu não sou quem você tá pensando...
- que se foda sua filha da puta, vai reclamar seus direitos no céu...
- sério, olha, a minha irmã é que se chama Takada. Eu sou Madalena. Eu atendi a sua ligação na madrugada. É que eu tô no momento do meu batismo lá na igreja e pra ser aceita eu preciso conquistar alguns fiéis perdidos. Pensei que se eu chegasse aqui no lugar de minha irmã...não sei... eu podia salvar logo dois de uma vez só...
- olha, meu anjo, o que eu tinha de fé, o padre arrancou quando eu era um moleque.
- mas Jesus está chegando!
- é o que sempre dizem... agora abre logo essas pernas que eu não quero tá ocupado quando ele chegar.
Ele partiu sorrindo para cima da religiosa. Rasgou a sua roupa. Deu uma porrada certeira que escorreu o melado na cara da coitada, e mais uma e mais outra e então outra. A japa caiu pelas beiradas, bateu na quina da mesa e desmaiou por uns instantes. Ele trepou como um cão desvairado. Meteu com tanta força, como se quisesse arrancar o próprio pau. A lembrança de um inverno maldito mais uma vez o violentara. De repente desistiu daquele corpo inerte. Caiu para o lado, exausto e encharcado. Suor e sangue entre o mijo e as fezes da japa. E o receio no cheiro. E a memória trancada.



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domingo, 18 de março de 2012

O DIA EM QUE MARCINHA EXPLODIU


Acabara de completar 10 anos de casada no último domingo. Não era um sonho realizado e muito menos fruto de uma escolha planejada. Certo dia reparou que a sua barriga aumentava horrores, algo que fugia completamente de seu controle, e assim progredia, mesmo quando não comia. E o drama maior foi quando percebeu o quanto que o tempo a envelheceu. Vivia em função da família, presa nas resoluções dos problemas dos outros, abafada diante da incapacidade de ser. A vida amorosa era morna. Clichê. Ainda sentia ligeiro tesão pelo marido, principalmente quando ele insistia com a língua cortante atrás de seu ouvido, mas nada perto de encharcar a calcinha, bem distante de sentir-se uma frágil adolescente no cio. Em outras épocas - bem antes da louca transformação - foi vocalista de uma banda feminina cover do Pink Floyd, a Pink Nic. Sustentava um cabelo azul, as unhas negras e exibia orgulhosa em seu antebraço a tatuagem da capa do disco The Dark Side of the Moon. Não deixava nada para o outro dia e foi assim, durante uma fúria enlouquecida do espírito, que ela arrastou o futuro marido pelo pescoço para dentro do camarim. Após o show, se entupiram de vodka e optalidon. Vomitaram água com a cara enfiada no vaso até o dia amanhecer. E nunca mais se separaram. Após alguns anos, era como se sobrevivesse encarcerada em um único dia, sem a lembrança do início e sem a menor chance de estar perto do fim. Seus momentos de tranquilidade se resumiam aos cigarrinhos – que ela não podia - e a vodka - que ela não devia - consumida de um jeito enlouquecido atrás da churrasqueira, lá no fundo do imenso quintal de sua casa. Tudo isso ao som de sua banda favorita, mais de 10 Gigas armazenados em sua memória. Quando se internava em seu cantinho esquecia de todo o resto que a sufocava, de tudo aquilo que a impedia de voar como nos velhos tempos, não queria nem saber se estava prestes a explodir, ela bebia e fumava desesperadamente, como se não houvesse depois – até hoje não sei se ela chutou o balde conscientemente ou se foi puro acidente de percurso -. Anteontem acordou desparafusada. E quando cuidava dos jardins e varria todo o quintal, percebeu uma enorme quantidade de folhas espalhadas por todo o terreno. Muitas mudas derrubadas ao chão, pareciam arrancadas, como um pensamento que nem chegou ao ponto de se imaginar em ação, como em sua vida, atropelada, transmudada e em decomposição. Imediatamente, com todo o carinho possível, enfiou a mão na terra molhada, inspirou profundamente e em seguida soltou o ar pela boca deixando escapar um pequeno sorriso esquecido. E ainda com as mãos bem enfiadas na terra, empinou a cabeça em direção ao céu e suspirou com uma vontade louca de que tudo se transformasse como em um passe de mágica. De repente, o cheiro inconfundível salivou a sua boca, imediatamente a nostalgia tomou conta do seu corpo, da sua memória, dos seus sentidos – ela se sentia viva! -. O cheiro vinha do fundo. Com os olhos fechados ela seguiu uma trajetória involuntária. Enfeitiçada pelas sensações do passado, tropeçou em canteiros de leguminosas, chutou alguns vasilhames com rosas - seu olfato apontava para o outro quintal - virou ao contrário um magnífico vaso vazio e com as mãos agarradas no topo do muro deu um salto incrível, como uma gata charmosa e sedenta, capaz de destroçar qualquer gato em apenas um mio. Na outra casa a vizinha andava de um lado para o outro, na maior pilha, gesticulava tanto, que podia causar inveja ao mais rápido beija-flor do jardim. Marcinha só percebeu que a mulher falava ao telefone quando a ligação terminou e ela sossegou os braços, estacionando em seguida um tremendo cachimbo entre os lábios. Aquela visão invadiu sua alma como um raio desgovernado, quebrando todas as possibilidades de negação, a fissura estava estampada em sua cara. Marcinha sentiu as pernas bambearem, a boca ficou ainda mais aguada, ela paralisou completamente.


- fala vizinhaaaaa! Disse a maluca exibindo o crime na boca. Marcinha não sabia se respondia ou se continuava a observar a magnífica trajetória da fumaça ou se pulava no pescoço da mulher e lhe arrancava, sem medir esforços, o cachimbão que ela fumava.

- vai um tapa?


- po-posso?


- lógico... E antes mesmo que ela terminasse, Marcinha já estava lambendo a sua face, com cara de criança pidona. A dona da casa não tinha mais do que 28 anos, sete a menos que ela. Um corpo enorme e magro, e suficientemente musculoso, e cabelos curtos, e olhos grandes, a androginia e humana figura era professora de educação física, a contradição em pessoa.

- calma... Silvinha ficou horrorizada com a fome da vizinha – ela fumava de um jeito muito esquisito, tava quase mastigando a porra do cachimbo -. Quase se rasgaram em gargalhadas, como se desejassem esgotar todo o arsenal de risos de uma só vez. E foi exatamente nesse momento relaxado, dessa intimidade toda, que a Marcinha percebeu que havia fumado demais. Sua voz falhava. As articulações rangiam e prenunciavam o desastre.

- que merda! Vai começar tudo de novo! Desesperadamente ela começou a caminhar pelo quintal, as mãos na cabeça, a respiração ofegante...

- É revertério? Os olhos arregalados gritaram.

- não é isso, eu não devia... o que foi que eu fiz...fique bem longe de mim...eu preciso voltar antes que... Ela saiu correndo desajeitada, deu um salto esticado e desapareceu por cima do muro na escuridão do outro lado. Silvinha não entendeu nada. Ficou paralisada, completamente sem noção do que acabara de testemunhar. Aguardou alguns instantes, mas foi em vão. Provocada por uma alucinada curiosidade decidiu ir atrás de sua vizinha. Caminhou em direção ao muro. O coração inquieto avisava para não avançar. Ela subiu em um caixote, rompeu a fronteira e mesmo sem enxergar nada, pulou de cabeça no outro terreno. Caiu ao lado daquilo que era o corpo de Marcinha. Um pescoço que girava em 360, e a cada volta voltava inválido, derrotado e com os parafusos sobrando. Batia as pernas sem direção, mexia os braços descompassados em resistência e resignação. Soltava faísca pelo nariz e fumaça do topo da cabeça, débil tentativa de retomar os sentidos. Mas estava quebrada e com vários pedaços de fios expostos sem nenhuma possibilidade de união. Vazava óleo pelos olhos – mas isso eu já desconfiava -. E foi assim. O dia em que Marcinha explodiu.



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sexta-feira, 9 de março de 2012

POEMA DE BOCA


Esse vídeo foi realizado no segundo semestre de 2010, para a disciplina Criatividade: Expressões Artísticas, do curso de Artes Visuais, optativa no meu curso de Letras da UFRR. A proposta da professora Larissa era discutir sobre o processo criativo, e os alunos deveriam produzir algum material sobre esse processo. Eu criei alguns poemas visuais, que já foram postados as fotos aqui, e esse vídeo, que na verdade são todos os poemas visuais. E é só. As possíveis explicações foram dadas em sala de aula. Agora, a boca é livre!


POEMA DE BOCA
http://www.youtube.com/watch?v=7HJCg_dVDlQ




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