
terça-feira, 25 de setembro de 2012
E a vida continua... tá tudo muito corrido. A Cia. do Lavrado realiza no mês de outubro a II OFICINA LIVRE DE TEATRO. A turma tá quase lotada. E vamos em frente... o Fanzine RECEITA NO VERSO de agosto tá na rua. Sei que já estamos quase no fim de setembro, mas com a greve da UFRR a coisa ficou devagar. Mas, agora, vamos colocar o trem no trilho. A ideia é continuar com o fanzine e fazer com que essa publicação vire patrimônio do curso de Letras. Então, é isso. Em breve, mais notícias. É isso...

terça-feira, 4 de setembro de 2012
Então, a vida continua...
O fanzine RECEITA NO VERSO também continua. Já estamos na quinta edição, embora eu não tenha colocado por aqui os outros, o fato é que a vida tá bem corrida, mas o fanzine continua. Esse mês vamos para a 6ª edição. Depois coloco por aqui os originais. Me deram a ideia de fazer o esquema virtual também, mas não tô com tempo pra isso agora.
A Cia. do Lavrado se reuniu dias desses e vamos em frente. Em breve mais notícias de espetáculos, por enquanto, vamos realizar a II OFICINA LIVRE DE TEATRO, em outubro.
Fechamos, também, uma parceria com o Boa Vista Play, um parque de diversões muito bacana e vamos realizar três oficinas por lá. Aos sábados, 9h às 11:30h, aos sábados, para crianças de 08 a 11 anos. E às quartas duas oficinas, de 9h às 11:30 e de 15h às 17:30 para adolescentes de 12 a 15 anos.
O grupo tá bacana, temos uma moçada nova chegando e com muita vontade de fazer teatro.
É isso. Em breve mais notícias.
APOIO: LB CONSTRUÇÕES e BOA VISTA PLAY
Abração
Marcelo Perez
O fanzine RECEITA NO VERSO também continua. Já estamos na quinta edição, embora eu não tenha colocado por aqui os outros, o fato é que a vida tá bem corrida, mas o fanzine continua. Esse mês vamos para a 6ª edição. Depois coloco por aqui os originais. Me deram a ideia de fazer o esquema virtual também, mas não tô com tempo pra isso agora.
A Cia. do Lavrado se reuniu dias desses e vamos em frente. Em breve mais notícias de espetáculos, por enquanto, vamos realizar a II OFICINA LIVRE DE TEATRO, em outubro.
Fechamos, também, uma parceria com o Boa Vista Play, um parque de diversões muito bacana e vamos realizar três oficinas por lá. Aos sábados, 9h às 11:30h, aos sábados, para crianças de 08 a 11 anos. E às quartas duas oficinas, de 9h às 11:30 e de 15h às 17:30 para adolescentes de 12 a 15 anos.
O grupo tá bacana, temos uma moçada nova chegando e com muita vontade de fazer teatro.
É isso. Em breve mais notícias.
APOIO: LB CONSTRUÇÕES e BOA VISTA PLAY
Abração
Marcelo Perez
sexta-feira, 18 de maio de 2012
FANZINE LITERÁRIO
O Fanzine Literário RECEITA NO VERSO de maio já tá na rua. Comecei a distribuir na biblioteca da UFRR, na quarta (16), acho que foram 100 exemplares. A ideia do contato físico muito me instiga. Olhar na cara dos possíveis leitores, dar bom dia, oferecer a palavra, isso é muito excitante. Esse é o barato da transformação. A possibilidade de quebra em uma rotina, um intervalo que seja para revigorar, rearrumar, bagunçar mais o pensamento. Eu falo aqui é da minha transformação, a que eu vivencio todos os dias. Acho que é isso. Confesso que a cada dia dentro desse projeto eu descubro mais uma razão para continuar.
Esse mês tem mais gente no RECEITA NO VERSO (e tá aí outra razão), a Ágda Santos, o Edgar Borges, a Kywsy Santos, o Rodrigo Mebs e a Zanny Adairalba são os colaboradores desta edição. Só gente bacana. Gente que produz direto, que tá sempre escrevendo, gente com quem eu me identifico. Dá uma olhada na imagem e saca só o que eles escreveram. Na verdade os primeiros colaboradores vivos, pois na edição passada mostraram a cara no fanzine o Leminski e o Bukowski. Acho que o fanzine também é isso, essa possibilidade de ampliar o diálogo geral. Hoje eu ouvi um troço muito legal:
- ele é pequenininho, tem poucas páginas, mas não dá pra ler tão rápido assim... tem coisa que eu preciso ler várias vezes...

quinta-feira, 10 de maio de 2012
sábado, 28 de abril de 2012
A MATADORA DA LIXEIRA DO 3º ANDAR
Paty Fat era uma menina extremamente engraçada. E se não fosse isso, seria mais uma gordinha sacaneada por todos do bairro. Na verdade, acontecia o contrário. No primeiro vacilo, ela entrava de sola, curtia com a cara na maior cara dura. E mesmo distante de ser uma gostosa na primeira encarada, despertava um tesão maluco nos meninos e a ira nervosa nas meninas mais descoladas. Não se conformavam com as armas utilizadas pela Paty para atrair a atenção dos rapazes. Usava e abusava dos peitões estufados no decote em bandeja. Provocava geral com um forte vermelho em sua boca Angelina Jolie, combinando com as unhas imensas que arranhavam o pulso em um simples aperto de mão. Sem falar da minúscula saia, que valorizava a dupla bundapernão, aguçando a imaginação até dos mais velhos, dos que não tinham mais idade para tal investida dentro da legalidade. Paty Fat não alimentava paixões platônicas e nem perdia seu tempo com perfumarias. Sabia das frágeis oportunidades e por isso se exibia ao limite. Sempre esperava atenta pela grande chance, que geralmente acontecia após cinco minutos de conversa com o rapaz desejado. Não perdia tempo, mergulhava boca adentro de suas vítimas, de tal modo que não houvesse chance de respiração. Uma verdadeira matadora. Mesmo sem a aprovação das amigas frustradas e a não propaganda dos machos rendidos, ela era o máximo. Até aqui tudo tranquilo, uma menina fora dos padrões, dando a volta por cima e arrancando da vida todo o possível. Tudo seriam flores se não houvesse um tal Piranha para atravancar o enredo. Piranha era um pegador veterano, cara bonito, um magro elegante que deslizava o verbo em veneno no ouvido das meninas do bairro. Um tarado de carteirinha. Vivia espalhando pela rua que jamais sairia com uma gordinha como a Paty e mesmo diante de toda a antipatia aparente, evitava ficar perto para não dar asas à sua curiosidade. Apesar dos comentários sórdidos na boca miúda, preferia manter a fama de nunca ter sido pego pela temível matadora. Isso amaciava o seu ego e o mantinha na linha de frente como o cara mais sagaz do bairro. Em uma tarde dessas, em que a turma toda estava reunida nos fundos do único prédio da cidade, ponto de encontro dos jovens aos sábados para assistirem ao jogo de vôlei dos mais velhos, Paty Fat apareceu decidida a mudar o placar do seu game contra o safado do Piranha. Ela surgiu poderosa entre os carros estacionados na calçada. Iluminada pelo foco do refletor entortado da padaria de esquina. Bem no caminho de um sopro de vento que valorizava os longos cabelos oxigenados. Espalhou o cheiro da maldade por todos os lados. Até o tempo parou encantado. Em seguida, foi um zunzunzum, um falatório desordenado, um suspense apontando o Piranha, que estatelou os olhos arregalados, engoliu seco e se agarrou com toda a força em sua medalhinha de São Jorge. A engraçada gordinha distribuiu sorrisos e cumprimentos. Foi passando e deixando sua marca inconfundível, uma simpatia irresistível, uma alegria contagiante, mas sem perder o foco em sua próxima vítima, a mais difícil, a mais ensaboada. E foi nessa intenção que ela estancou ao lado do sujeito. As pernas do moço bambearam. O olhar só fingia direção, dava para sentir o descompasso frenético no coração do rapaz. O que vem a seguir, o Piranha jura que planejou cada detalhe, até mesmo o aparente descontrole. Já Paty Fat diz que foi como tirar doce da boca de criança. Mas vamos aos fatos. Paty sabia de algumas manias do rapaz e uma delas era o cigarro. Ele não tinha o hábito de comprar, mas sempre dava um jeito de filar de alguém. E nesse dia, bastante agitado com a situação, ele caminhou por entre os amigos em busca de um e por azar do menino ou como ele mesmo disse - foram apenas peças encaixadas -, ninguém tinha para lhe dar. Ele, então, parou ao lado da Paty Fat, ainda nervoso e percebendo o revés em que se metia. E ela, disposta a agarrar sua presa, nem que fosse pelo pulmão, mandou a letra pegando fogo para o rapaz.
- eu tenho um maço fechado...
- me dá logo um! Disse todo grosseiro, mantendo a pose de bad boy.
- deixei escondido na lixeira do 3º andar... bora lá?
Foi a espetada fatal no touro cansado. Ou a simulação perfeita nas costas da matadora. Subiram na encolha, sem serem vistos. O prédio não tinha elevador e assim, propositalmente ela subiu as escadas na frente, quase golpeando a cara do oponente a cada passo rebolado. Parou na porta da lixeira. Ele estacou no último degrau da escada, ficou na espreita, não queria ser visto naquela situação. Ela entrou na lixeira sozinha, arriou a calcinha e em seguida colocou apenas a ponta do rosto para fora.
- vem... o cigarro tá queimando aqui dentro.
Ele entrou ligeiro na sequência. E o que aconteceu lá dentro, eu não tenho a menor ideia. Mas ele disse que fumou um cigarro e a Paty tentou agarrá-lo e ele deu uma volta nela, e ela tentou por um beijo e ele disse que não e ela partiu para cima e ele saiu batido da lixeira com o maço de cigarros cheinho, sem nem precisar dar um beijo no rosto da gordinha, que ainda na versão dele, levou um empurrão e se espatifou no monte de lixo espalhado pelo chão. Já a Paty Fat, contou orgulhosa que ele fumou um cigarro e tentou agarrá-la e ela deu uma volta nele, e ele tentou por um beijo e ela disse que não e ele partiu para cima e ela disse que só ficaria com ele se ele confessasse que era louco por ela e que a amava de paixão. E depois de ouvir as declarações do rapaz, ela fez o que quis e até o que ele não quis. Deixou - o derrotado, sentado no monte de lixo espalhado pelo chão, sem nem entender direito o que acabara de acontecer. Foi o que ela disse. O que eu posso garantir foi que ela desceu primeiro, apesar de eu ter dado uma saída no intervalo do jogo, mas com certeza eu a vi primeiro lá na rua. Tem gente que diz que o Piranha desceu na frente, todo marrento e arrotando satisfação. Mas vai saber o que aconteceu. Eu só sei que a Paty Fat tá louquinha por mim. Tá me dando um mole desgraçado. Mas eu não quero agora. Tô sossegado. Os imbecis lá da rua ficam me sacaneando, dizem que eu tô viajando, Forrest Gump, que a Paty nunca que iria sair comigo, um moleque dessa idade. Mas vai saber se já não saiu... E isso, só se eu te contar.

segunda-feira, 16 de abril de 2012
RECEITA NO VERSO
No dia 11/04 começou a circular na UFRR o fanzine literário RECEITA NO VERSO. Essa é uma das possibilidades de intervenção dentro do campus que estava engavetada faz tempo e que agora no último semestre do meu curso de Letras/Literatura eu consegui colocar ação. Escrever nunca foi uma tarefa simples e muito menos entender como se dá esse processo em minha vida e essa é uma das razões que me faz continuar.
Nesse semestre pretendo lançar meu primeiro livro de contos. Isso seria uma tarefa fácil, acredito, se escrever não estivesse ligado ao meu processo de crescimento como indivíduo, se escrever fosse algo que eu pudesse explicar apenas com a palavra inspiração, se escrever não tivesse essa faca no pescoço me lembrando a todo momento que eu posso fracassar, e não digo na escrita e sim na vida. O processo de escrever é tão esquisito que volta e meia eu me percebo tentando boicotar a escrita, tento fugir como o diabo foge da cruz. É assim que escrevo, muitas vezes para não fracassar.
Enfim, Fanzine é uma publicação independente, de baixo custo, xerocada, normalmente editada por alguém que curte muito um determinado assunto e deseja dividir as suas ideias. Entendo o Fanzine como um instrumento de comunicação muito poderoso. Por ser uma publicação de bolso, trazer uma linguagem diversificada, com textos curtos e digrátis ele possibilita um contato direto entre escritor e leitor. O livro proporciona isso, mas nem todo mundo compra, aliás, nem todo mundo lê. A internet proporciona isso, mas nem todo mundo acessa blogs e sites de literatura, ainda mais depois da febre FACEBOOK e TWITTER, no qual as pessoas investem um tempo enorme e não reservam espaço para outras leituras. Não sou contra essas ferramentas, apesar de ter me afastado delas por acreditar que o conceito de Rede Social não funcionava na minha vida, pois quando eu deixo de fazer um comentário com quem tá do meu lado, fisicamente, para inserir esse comentário em uma rede virtual, eu acabo por me isolar, o contato não acontece. É um tiro no pé.
Escrever em um Fanzine até me pareceu uma ideia nostálgica, diante dessas tecnologias todas, Internet, Ipad, Iphone, mas ainda acredito na sensação indescritível do livro nas mãos, e no caso dessa publicação independente, o leitor com um mínimo de curiosidade não vai ter muito trabalho. É só abrir e ler. E aí, quando isso acontecer, a comunicação foi realizada. E o que isso pode gerar? Eu não tenho a menor ideia. Mas continuo escrevendo.

domingo, 25 de março de 2012
O INVERNO SEMPRE VOLTA
O corpo estava imerso por mais de uma hora na banheira. Apenas a cabeça fora da água o sustentava. Levantou-se com as dificuldades diárias, como se todos os dias amanhecesse faltando pedaços. O juízo pesava uns 10 kg, a boca ressecada colava e o bafo espantava a escova e a pasta. Mais uma vez mastigado. A razão não sentia pena e a culpa era de arrancar os braços. Até anoitecer ele sempre sofria. Arrastava-se pela casa como uma barata descontrolada fugindo da luz. Acabava estacionado na poltrona, de frente para a janela fechada, com uma garrafa de vodka aos tragos, colecionando baganas e fumando cigarros. Um espectador esfomeado para a próxima sessão. E quando tudo caminhava para o fim, ele deu um pulo felino, abriu a cortina - louco de paixão! - e recebeu a lua no meio da lata. Estava conectado. Emborcou o resto da garrafa e vagueou pela sala assobiando uma melodia qualquer, esbanjando atitude. Pegou outra vodka em cima do armário, escolheu com muita paciência a trilha das próximas horas – Inocentes – e partiu para a geladeira sem nenhuma culpa. Salaminho, azeitonas e um queijo fatiado fedido de outros dias. Foi quando o telefone tocou.
- fala!
- é o Roberto Teles?
- sim, meu amor, quem procura?
- eu sou a Takada, você me ligou na madruga...
- liguei?
- ligou sim, não é você que precisa de mulher? ou já se resolveu? Eu já cheguei na área, mas tô perdida....
- e quem não tá, meu amor...
- eu já tô na rua, mas não acho a casa...
- é a que tem dois números dois apagados...
- já chego aí.
- não duvido disso.
Ele foi até a janela. Deu uma espiada. Não havia uma alma para contar a história. A rua não parecia uma moça com boas intenções. Ajeitou o cabelo. Tomou uma dose caprichada, virou o pau para o lado esquerdo e respirou fundo. Foi quando ouviu as batidas na porta. Deu uma olhada pelo canto da cortina e viu uma oriental baixinha, com poucos peitos, e toda sorridente.
- e, aí, gostosa? Tava difícil?
- muito. não costumo vir pra essas bandas....
- sei...
- sério, eu nunca andei pela periferia.
- aqui também tem pecado, meu anjo.
- e é por isso que eu tô aqui!
- gostei disso.
- olha, a gente pode fazer diferente...
- acho difícil, meu amor, mas de qualquer forma, trás essa bucetinha oriental pra dentro e vamos ver o que a noite promete.
Ele deixou a japa girl entrar. O que ela não tinha de peito, tinha de bunda. E estava empinada em um salto alto, pronta para derrubar um planeta. A roupa parecia um disfarce, se a encontrasse pelas ruas jamais imaginaria se tratar de uma putinha de anúncio de orelhão. Mas esquisito mesmo era o nervosismo fora do normal para uma puta sabida. Ele virou mais um gole e lhe ofereceu a vodka.
- não. obrigado. eu não bebo.
- como?!
- eu não bebo.
- nada?
- nunca.
- sério?! não bebe em serviço ou nunca bebeu?
- nunca bebi.
O excesso de nervosismo da putinha, ele até que podia dar conta. Talvez ela estivesse assim porque nunca tinha andado naquela região, e o povo adora colocar o terror, como se a periferia fosse o elo perdido, mas daí a engolir que ela não bebia, isso era demais para a sua compreensão. Lembrou de uma vez que saiu com uma puta velha e passaram a noite bebendo álcool 96 com laranjada, ficaram tão chapados que a rampeira saiu do quarto do motel, subiu em cima do carro, derrubou a garrafa de álcool na cabeça e em seguida acendeu um cigarro. Ela desapareceu em uma sequência explosiva cinematográfica no estacionamento. Quando se tratava de putaria a parada era mais punk, não tinha esse negócio de não faço isso e não faço aquilo, mas de qualquer forma, a coisa não encaixava e ele resolveu ser mais cauteloso. A japinha, ainda vestida, parecia uma colegial curiosa.
- você mora sozinho aqui?
- sempre.
- tua casa é bem legal. Parece até casa de artista...
- é?
- os quadros na parede... pelo chão..nossa, em toda parte...
- quando eu não tô fudendo eu pinto.
- tem pintado bastante....
- deixa de onda, qual vai ser?
- vamos conversar mais um pouco, eu quero te conhecer melhor...
- olha, meu amor, posso até passar a noite inteira nessa contradição, mas só vou te pagar o tempo que eu estiver dentro de você.
- tá bom.
- tá bom é o caralho! Que pôrra de puta é você?
Ele segurou o queixo da japa e arriscou um beijo forçado. Ela resistiu, tentou fechar a boca, mas ele a apertou com mais força e lhe deu uma porrada bem dada no meio da cara. Ela cambaleou como um João bobo, mas ele a trouxe de volta lhe apertando o pescoço bem forte. Por uns instantes a menina ficou imóvel, como um passarinho na palma das mãos que o amassara. Dessa vez, a razão não chegou tarde demais. Ele, assustado com o quadro que pintara, jogou a oriental no chão e ainda ofegante, correu pela casa fechando as janelas, observando antes se havia alguma orelha do lado de fora. A japona rolou no meio da sala, o corpo para um lado e a bolsa desmantelada para o outro. Do jeito que a situação se formara, ela estava fudida. Depois de isolar toda a casa, ele arrastou a mesa e as cadeiras, abrindo espaço na sala, estava decidido a ir em frente, faminto e cego, sem doces intenções e...
- que porra é essa? Tropeçou nas coisas da japinha que ficaram espalhadas no chão. E ela, já recuperada dos apertões lhe confirmou.
- é minha bíblia.
- tá de sacanagem...
-não mesmo. Eu não saio de casa sem ela.
- que merda de puta é você que não bebe mas reza?
- e rezo sim. Agora mesmo, antes de bater em sua porta eu dei uma olhada em coríntios 6:13, 18 mas o corpo não é para a prostituição, mas para o senhor, e o senhor para o corpo... Fugi da prostituição. Qualquer outro pecado que o homem comete, é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo.
- só me faltava essa... ei, minha criança, se ajoelha aqui pra fazer uma oração. Ele colocou a bíblia bem nos seus pés.
- moço, eu não sou quem você tá pensando...
- que se foda sua filha da puta, vai reclamar seus direitos no céu...
- sério, olha, a minha irmã é que se chama Takada. Eu sou Madalena. Eu atendi a sua ligação na madrugada. É que eu tô no momento do meu batismo lá na igreja e pra ser aceita eu preciso conquistar alguns fiéis perdidos. Pensei que se eu chegasse aqui no lugar de minha irmã...não sei... eu podia salvar logo dois de uma vez só...
- olha, meu anjo, o que eu tinha de fé, o padre arrancou quando eu era um moleque.
- mas Jesus está chegando!
- é o que sempre dizem... agora abre logo essas pernas que eu não quero tá ocupado quando ele chegar.
Ele partiu sorrindo para cima da religiosa. Rasgou a sua roupa. Deu uma porrada certeira que escorreu o melado na cara da coitada, e mais uma e mais outra e então outra. A japa caiu pelas beiradas, bateu na quina da mesa e desmaiou por uns instantes. Ele trepou como um cão desvairado. Meteu com tanta força, como se quisesse arrancar o próprio pau. A lembrança de um inverno maldito mais uma vez o violentara. De repente desistiu daquele corpo inerte. Caiu para o lado, exausto e encharcado. Suor e sangue entre o mijo e as fezes da japa. E o receio no cheiro. E a memória trancada.

domingo, 18 de março de 2012
O DIA EM QUE MARCINHA EXPLODIU
Acabara de completar 10 anos de casada no último domingo. Não era um sonho realizado e muito menos fruto de uma escolha planejada. Certo dia reparou que a sua barriga aumentava horrores, algo que fugia completamente de seu controle, e assim progredia, mesmo quando não comia. E o drama maior foi quando percebeu o quanto que o tempo a envelheceu. Vivia em função da família, presa nas resoluções dos problemas dos outros, abafada diante da incapacidade de ser. A vida amorosa era morna. Clichê. Ainda sentia ligeiro tesão pelo marido, principalmente quando ele insistia com a língua cortante atrás de seu ouvido, mas nada perto de encharcar a calcinha, bem distante de sentir-se uma frágil adolescente no cio. Em outras épocas - bem antes da louca transformação - foi vocalista de uma banda feminina cover do Pink Floyd, a Pink Nic. Sustentava um cabelo azul, as unhas negras e exibia orgulhosa em seu antebraço a tatuagem da capa do disco The Dark Side of the Moon. Não deixava nada para o outro dia e foi assim, durante uma fúria enlouquecida do espírito, que ela arrastou o futuro marido pelo pescoço para dentro do camarim. Após o show, se entupiram de vodka e optalidon. Vomitaram água com a cara enfiada no vaso até o dia amanhecer. E nunca mais se separaram. Após alguns anos, era como se sobrevivesse encarcerada em um único dia, sem a lembrança do início e sem a menor chance de estar perto do fim. Seus momentos de tranquilidade se resumiam aos cigarrinhos – que ela não podia - e a vodka - que ela não devia - consumida de um jeito enlouquecido atrás da churrasqueira, lá no fundo do imenso quintal de sua casa. Tudo isso ao som de sua banda favorita, mais de 10 Gigas armazenados em sua memória. Quando se internava em seu cantinho esquecia de todo o resto que a sufocava, de tudo aquilo que a impedia de voar como nos velhos tempos, não queria nem saber se estava prestes a explodir, ela bebia e fumava desesperadamente, como se não houvesse depois – até hoje não sei se ela chutou o balde conscientemente ou se foi puro acidente de percurso -. Anteontem acordou desparafusada. E quando cuidava dos jardins e varria todo o quintal, percebeu uma enorme quantidade de folhas espalhadas por todo o terreno. Muitas mudas derrubadas ao chão, pareciam arrancadas, como um pensamento que nem chegou ao ponto de se imaginar em ação, como em sua vida, atropelada, transmudada e em decomposição. Imediatamente, com todo o carinho possível, enfiou a mão na terra molhada, inspirou profundamente e em seguida soltou o ar pela boca deixando escapar um pequeno sorriso esquecido. E ainda com as mãos bem enfiadas na terra, empinou a cabeça em direção ao céu e suspirou com uma vontade louca de que tudo se transformasse como em um passe de mágica. De repente, o cheiro inconfundível salivou a sua boca, imediatamente a nostalgia tomou conta do seu corpo, da sua memória, dos seus sentidos – ela se sentia viva! -. O cheiro vinha do fundo. Com os olhos fechados ela seguiu uma trajetória involuntária. Enfeitiçada pelas sensações do passado, tropeçou em canteiros de leguminosas, chutou alguns vasilhames com rosas - seu olfato apontava para o outro quintal - virou ao contrário um magnífico vaso vazio e com as mãos agarradas no topo do muro deu um salto incrível, como uma gata charmosa e sedenta, capaz de destroçar qualquer gato em apenas um mio. Na outra casa a vizinha andava de um lado para o outro, na maior pilha, gesticulava tanto, que podia causar inveja ao mais rápido beija-flor do jardim. Marcinha só percebeu que a mulher falava ao telefone quando a ligação terminou e ela sossegou os braços, estacionando em seguida um tremendo cachimbo entre os lábios. Aquela visão invadiu sua alma como um raio desgovernado, quebrando todas as possibilidades de negação, a fissura estava estampada em sua cara. Marcinha sentiu as pernas bambearem, a boca ficou ainda mais aguada, ela paralisou completamente.
- fala vizinhaaaaa! Disse a maluca exibindo o crime na boca. Marcinha não sabia se respondia ou se continuava a observar a magnífica trajetória da fumaça ou se pulava no pescoço da mulher e lhe arrancava, sem medir esforços, o cachimbão que ela fumava.
- vai um tapa?
- po-posso?
- lógico... E antes mesmo que ela terminasse, Marcinha já estava lambendo a sua face, com cara de criança pidona. A dona da casa não tinha mais do que 28 anos, sete a menos que ela. Um corpo enorme e magro, e suficientemente musculoso, e cabelos curtos, e olhos grandes, a androginia e humana figura era professora de educação física, a contradição em pessoa.
- calma... Silvinha ficou horrorizada com a fome da vizinha – ela fumava de um jeito muito esquisito, tava quase mastigando a porra do cachimbo -. Quase se rasgaram em gargalhadas, como se desejassem esgotar todo o arsenal de risos de uma só vez. E foi exatamente nesse momento relaxado, dessa intimidade toda, que a Marcinha percebeu que havia fumado demais. Sua voz falhava. As articulações rangiam e prenunciavam o desastre.
- que merda! Vai começar tudo de novo! Desesperadamente ela começou a caminhar pelo quintal, as mãos na cabeça, a respiração ofegante...
- É revertério? Os olhos arregalados gritaram.
- não é isso, eu não devia... o que foi que eu fiz...fique bem longe de mim...eu preciso voltar antes que... Ela saiu correndo desajeitada, deu um salto esticado e desapareceu por cima do muro na escuridão do outro lado. Silvinha não entendeu nada. Ficou paralisada, completamente sem noção do que acabara de testemunhar. Aguardou alguns instantes, mas foi em vão. Provocada por uma alucinada curiosidade decidiu ir atrás de sua vizinha. Caminhou em direção ao muro. O coração inquieto avisava para não avançar. Ela subiu em um caixote, rompeu a fronteira e mesmo sem enxergar nada, pulou de cabeça no outro terreno. Caiu ao lado daquilo que era o corpo de Marcinha. Um pescoço que girava em 360, e a cada volta voltava inválido, derrotado e com os parafusos sobrando. Batia as pernas sem direção, mexia os braços descompassados em resistência e resignação. Soltava faísca pelo nariz e fumaça do topo da cabeça, débil tentativa de retomar os sentidos. Mas estava quebrada e com vários pedaços de fios expostos sem nenhuma possibilidade de união. Vazava óleo pelos olhos – mas isso eu já desconfiava -. E foi assim. O dia em que Marcinha explodiu.

sexta-feira, 9 de março de 2012
POEMA DE BOCA
Esse vídeo foi realizado no segundo semestre de 2010, para a disciplina Criatividade: Expressões Artísticas, do curso de Artes Visuais, optativa no meu curso de Letras da UFRR. A proposta da professora Larissa era discutir sobre o processo criativo, e os alunos deveriam produzir algum material sobre esse processo. Eu criei alguns poemas visuais, que já foram postados as fotos aqui, e esse vídeo, que na verdade são todos os poemas visuais. E é só. As possíveis explicações foram dadas em sala de aula. Agora, a boca é livre!
POEMA DE BOCA
http://www.youtube.com/watch?v=7HJCg_dVDlQ

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
DESCULPAS INCRÍVEIS
os dias me escapam sem nenhum juízo
minhas noites morrem sem deixar vestígios
a madrugada é desumana, indigna
e as minhas desculpas é que são fracas?
não existem?
não existem?
pode até parecer que eu não tô nem aí
mentiras sinceras não são simples assim
desculpas de contos de fadas me enojam
as rosas estragam e os bombons enfezam
quando não servem mais
quando não servem mais
a dor eu sossego
com remédios ilícitos
mentiras e vícios
desculpas incríveis
com desprezos
com seu desprezo

sábado, 18 de fevereiro de 2012
AOS DIAS NORMAIS
A MENTE REGRIDE
O CORPO ACOMPANHA O PROCESSO
ENQUANTO A MENTE APRISIONA
O EXCESSO DETONA COM O RESTO
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
QUEM CONTROLA O SEU CORPO?
EXISTE ALGUÉM NA SUA MENTE?
NO SUBMUNDO SE ESCONDE
E SE DESLIGA DE TUDO O QUE SENTE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
E QUANDO OS DIAS REVELAM
OS SEGREDOS DOS TEUS INSUCESSOS
E QUANDO OS DIAS REVELAM
OS SEGREDOS DOS TEUS INSUCESSOS
- VOCÊ INSISTE!
VOCÊ SOBREVIVE
- VOCÊ INSISTE!
VOCÊ SOBREVIVE
- VOCÊ INSISTE!
VOCÊ SOBREVIVE
AOS DIAS
NORMAIS
DEMAIS
O CORPO ACOMPANHA O PROCESSO
ENQUANTO A MENTE APRISIONA
O EXCESSO DETONA COM O RESTO
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
QUEM CONTROLA O SEU CORPO?
EXISTE ALGUÉM NA SUA MENTE?
NO SUBMUNDO SE ESCONDE
E SE DESLIGA DE TUDO O QUE SENTE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
VOCÊ SOBREVIVE
E QUANDO OS DIAS REVELAM
OS SEGREDOS DOS TEUS INSUCESSOS
E QUANDO OS DIAS REVELAM
OS SEGREDOS DOS TEUS INSUCESSOS
- VOCÊ INSISTE!
VOCÊ SOBREVIVE
- VOCÊ INSISTE!
VOCÊ SOBREVIVE
- VOCÊ INSISTE!
VOCÊ SOBREVIVE
AOS DIAS
NORMAIS
DEMAIS

sábado, 11 de fevereiro de 2012
VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
MAS NÃO PENSE QUE EU ESTOU LOUCO
SÃO MEUS VERSOS PLANEJANDO
TOMAR CONTA DO MEU CORPO
E DETONAR COM A MINHA RAZÃO
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO FINGINDO SER OUTRO
EU TENTO SENTIR QUE NÃO SOFRO
NÃO PENSE QUE EU ESTOU LOUCO
PALAVRAS SÃO FARPAS NUM CORPO
EU TENTO ARRANCAR O QUE EU SINTO
NÃO SEI SE É VERDADE OU SE MINTO
HÁ FRASES PALAVRAS SENTIDOS
SÃO FORMAS QUE GRITAM NO OUVIDO
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
MAS NÃO PENSE QUE EU ESTOU LOUCO
SÃO MEUS VERSOS PLANEJANDO
TOMAR CONTA DO MEU CORPO
E DETONAR COM A MINHA RAZÃO
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO FINGINDO SER OUTRO
EU TENTO SENTIR QUE NÃO SOFRO
NÃO PENSE QUE EU ESTOU LOUCO
PALAVRAS SÃO FARPAS NUM CORPO
EU TENTO ARRANCAR O QUE EU SINTO
NÃO SEI SE É VERDADE OU SE MINTO
HÁ FRASES PALAVRAS SENTIDOS
SÃO FORMAS QUE GRITAM NO OUVIDO
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES
EU ANDO OUVINDO VOZES

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
O DIA SEGUINTE
não aguento mais ouvir o grito
da minha alma insana
implorando por teu corpo
apelando pro perdão
não aguento o teu silêncio
a tua ausência na minha cama
um belo quadro expressionista
o pôr-do-sol, a escuridão
afeto violento
amor ardente exigente
entusiasmo adolescente
em alto grau e sem razão
doença que ninguém deseja a cura
sofrimento prolongado
o Cristo do alto de uma cruz
de bar em bar eu ando esquecendo o teu nome
vagando como um cão vagabundo sem dono

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
AMORÍFERO
Amordaçado, amorativo
Amor que dói é o que existe
Amortiçado? Amortecido
Amor se dói, é que resiste
Amor eu sinto infinito
Amor sem fim e sem princípios
Amor aos berros como um bicho
Que não desgruda é como um vício
Amor passageiro é desespero
Amor inquieto eu ouço gritos, eu ouço gritos, eu ouço gritos
Amor, o que dói é que eu sinto
Sem risco de ser ridículo
Amor, o que dói, é o que eu sinto
Bem simples e sem sentido
Amordaçado, amortecido
Amortiçado, amorativo
Amor de jovem, amor bandido
Que não tem dono e nem juízo
Amor se morre não é desperdício
É perda de tempo desde o início
Amor se vive por inteiro
Se for desespero é passageiro
Amor, o que dói é que eu sinto
Sem risco de ser ridículo
Amor, o que dói, é o que eu sinto
Bem simples e sem sentido

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
COMO CÓLERA QUE ARDE
ME SINTO COMPULSIVO
UM TANTO QUANTO OBSESSIVO
ME BEIJA E VAI EMBORA?
EU FICO PERDIDO NOS SES
NEM SEI MAIS O QUE EU SINTO
AS IDEIAS ME FOGEM AGORA
NÃO VEJO MAIS SENTIDO
EM FICAR ESPERANDO NO FIM
NÃO VEJO MAIS SENTIDO
EM FICAR TE ESPERANDO NO FIM
EU FICO AGONIADO
VOU SEGUINDO AFLITO TEUS PASSOS
SE ME OLHA, EU DISFARÇO
TEU ENGANO ME ARRANCA PEDAÇOS
COMO CÓLERA QUE ARDE
COMO UM GRITO MALDITO ENGASGADO
NÃO SEI MAIS O QUE EU FAÇO
SE BEM PERTO É TÃO LONGE PRA MIM
NÃO VEJO MAIS SENTIDO
EM FICAR ESPERANDO NO FIM
JÁ TÔ QUASE ABORTANDO
EU NÃO TENHO MAIS UM PLANO
EU NÃO VEJO MAIS SENTIDO
EM FICAR TE ESPERANDO NO FIM
UM TANTO QUANTO OBSESSIVO
ME BEIJA E VAI EMBORA?
EU FICO PERDIDO NOS SES
NEM SEI MAIS O QUE EU SINTO
AS IDEIAS ME FOGEM AGORA
NÃO VEJO MAIS SENTIDO
EM FICAR ESPERANDO NO FIM
NÃO VEJO MAIS SENTIDO
EM FICAR TE ESPERANDO NO FIM
EU FICO AGONIADO
VOU SEGUINDO AFLITO TEUS PASSOS
SE ME OLHA, EU DISFARÇO
TEU ENGANO ME ARRANCA PEDAÇOS
COMO CÓLERA QUE ARDE
COMO UM GRITO MALDITO ENGASGADO
NÃO SEI MAIS O QUE EU FAÇO
SE BEM PERTO É TÃO LONGE PRA MIM
NÃO VEJO MAIS SENTIDO
EM FICAR ESPERANDO NO FIM
JÁ TÔ QUASE ABORTANDO
EU NÃO TENHO MAIS UM PLANO
EU NÃO VEJO MAIS SENTIDO
EM FICAR TE ESPERANDO NO FIM

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
O MENINO QUE MORREU SUFOCADO COM AS PALAVRAS
Não tinha jeito de convencer o menino a jantar no horário. Leon comia de tudo durante o dia e sempre da maneira mais descontrolada possível. Já levantava da cama, pela manhã, mastigando o vento. Se escovasse os dentes sem a supervisão de um adulto, comia todo o tubo da pasta. E se alguém reclamasse com ele, saía enfurecido resmungando pela casa com a boca toda esverdeada. Os pais cortavam um dobrado com o apetite insaciável do pivete. Ele não era igual aos outros moleques da rua. Queria tudo ao inverso, o ritmo oposto, a leitura do livro pelo final. Só existia uma coisa capaz de satisfazer - ou melhor, de disfarçar - o apetite voraz do garoto. As palavras lhe causavam um encantamento quase que paralisante. Diante delas, ele pendurava o tempo no varal. Quando passeava pelas ruas do bairro, devorava os anúncios das vitrines e dos outdoors, fazia questão de guardar todos os folhetinhos de propagandas que eram distribuídos aos montes no comércio que ficava no final de sua rua. E tudo que lia ele repetia em voz alta. Absorvia ao máximo os novos significados que a vida lhe apresentava. Isso tudo seria considerado normal, se não fosse o verdadeiro fascínio inexplicável que o menino tinha em ler as palavras pelo lado contrário. Acreditava que o verdadeiro significado estava lá, da direita para a esquerda – e falo aqui de um pirralho de apenas 10 anos, que criou uma língua paralela. Quando pensamos que atingimos o limite, a vida nos surpreende com a possibilidade da dor de cabeça ser bem maior do que imaginávamos – um comportamento esquisito que deixava os pais de Leon intrigados, uma língua que só ele entendia. Certo dia, em um desses inofensivos passeios pelas ruas do bairro com a sua família, o garoto conseguiu ler um anúncio do lançamento da nova sensação dos chicletes WORDS – vocês podem até imaginar que o Leon sendo um tremendo fominha, deve ter perturbado os pais para adquirir alguns - mas esses chicletes não eram como os outros que traziam, em sua maioria, figurinhas para serem colecionadas. Esses traziam palavras coloridas. A cada chiclete comprado o indivíduo recebia uma palavra e assim ele ia formando frases e mais frases. O moleque só parou de repetir a palavra SDROW quando conseguiu que seus pais comprassem 10 caixas para ele – eram 200 chicletes por caixa – ele ficou extasiado e fez questão de carregar várias, sozinho. Queria de qualquer maneira saber todas as palavras do mundo. Entrou em casa como um trem desgovernado, derrubando tudo que via pela frente. Foi direto para o seu quarto, trancou-se, empurrou o armário para a porta, fechou as janelas e arrastou as cortinas. Enfiou-se debaixo da cama. Mantinha uma caixa de chicletes agarrada ao seu peito e algumas outras espalhadas pelo chão. Rasgou o plástico e enfiou a mão com vontade - não havia nenhum adulto por perto e aquela leve sensação de liberdade o fez mastigar um número exagerado de chicletes ao mesmo tempo -. Estava extremamente feliz. Mastigava e juntava palavras. Depois de colocar um monte de chicletes em sua boca e sem conseguir parar de rir de tanta satisfação e gozo, o menino percebeu o bolo da gosma doce que escorregava para a entrada da sua goela. Tentou reverter o processo, mas já era tarde. Um pedaço imenso de chiclete alojou-se em sua garganta. O menino tentou sorrir um sorriso desesperado. Tentou tossir uma tosse forçada. Tentou falar, mas já não tinha forças para articular. O ar já não passava. Debateu-se roxo, contorceu-se ao limite e sufocou em um susto. Nenhuma palavra bastava.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012
HOMENAGEM AO SURFISTA CALHORDA
Estacionou seu pequeno fusquinha amassado num mísero espaço entre duas caminhonetes. Foi preciso no cálculo. Nem de longe chegou perto das inúteis orientações paranóicas de seu antigo instrutor. Saiu pelo teto solar, com os braços abertos, espreguiçando na cara do sol, na maior cara-de-pau. Olhou para o mar, esperançoso, e avistou altas ondas. Poucos surfistas se aventuravam no quintal de Poseidon. Apenas alguns Big Riders tarados e sem um pingo de responsabilidade na lata. A areia bombava de gente por todos os lados. O cheiro do medo antecipava qualquer comentário - era a maldita ressaca de Janeiro! De tempos em tempos, pranchas aos pedaços voavam e minúsculos corpos desmaiados e destroçados eram arremessados de volta à areia. O mar não fazia acordos e muito menos estabelecia diálogos. Marcão Marconha, cheio de si, sacou sua prancha de madeira, rachada, fez um sinal da cruz, deu um último tapa e invadiu as areias da praia. E a cada passo que dava, em meio a fumaça que revelava o herói, o povo comentava.
- olha lá, é o Madeira!
- é mesmo, irmão, acho que o minhoca do Madeira vai cair!
- ele disse que era a sua despedida! Vai enterrar a madeira rachada!
E assim as bocas falavam. Bocas de curiosos, bocas de espírito de porco e até mesmo bocas avermelhadas e carnudas, loucas para dar um pega legal no carinha da hora. Marcão chegou bem na beira da água, repousou a prancha - que pra muitos já era da idade da pedra - e sentou-se confortavelmente. Alongou-se, como qualquer atleta safo. O mar estava gigante - qualquer imagem perto do fim do mundo era pinto – e ele olhou para trás, cabreiro e viu a moçada, geral, com os olhos arregalados e os lábios mordidos. Não tinha mais volta. Ou ele domava os vagalhões impossíveis, ou então, passaria o resto de seus dias com os dedos dos outros enfurnados em sua cara. Molhou os pés – cautelosamente – e sentiu uma leve tapa da brisa que vinha do mar. Arrepiou até o último fio do cabelo. Nenhum surfista havia conseguido entrar, pegar uma onda inteira e voltar para praia – como disse antes, eles eram arremessados como cuspe desengonçado que vara sem destino pelo ar – ninguém conseguia finalizar uma onda. O mar decididamente não estava para peixes – o que dirá pra surfistas calhordas – mas o Marcão era o cara. Ele tinha o gérmen da insanidade correndo enlouquecidamente pelas suas veias. Para ele não tinha tempo ruim. O povo na areia não parava de comentar.
- ele não vai conseguir...
- tá fudido! Chama logo a emergência!
Ele percebeu o burburinho. Estava mais do que decidido. Enfiou o estrepe no pé direito, caminhou em direção à água e caiu de cara no mar nervoso. Por alguns instantes, desapareceu. Ninguém entendeu nada. Era só espuma e pancadas violentas na arrebentação. O silêncio imperou – eu vi gente chorando, pode acreditar, eu tava lá – e sem que ninguém percebesse, depois da última série avassaladora, o Marconha despencou de 90 pés enfurecidos – são 30 metros maluco! – e veio cheio de marra, berrando a música do Michel Teló, com os braços abertos como no Titanic, cortando todas as possibilidades de erros, entubando radicalmente, chegando bem na beirinha e saltando da prancha como se fosse brincadeira de criança. Na areia o povo urrava de felicidade, mas sua saída do mar foi em silêncio, estufada de moral. Ele cavou um buraco, enterrou sua prancha, fez uma rápida oração – despedida - e caminhou para o estacionamento. Entrou no fusquinha pelo teto solar e depois de muito amassar as caminhonetes, saiu cantando o pneu. Bateu de frente no cruzamento da Mavericks com a Jaws, em um imenso caminhão de cerveja. Perda total do veículo. Marcão Marconha morreu.
- olha lá, é o Madeira!
- é mesmo, irmão, acho que o minhoca do Madeira vai cair!
- ele disse que era a sua despedida! Vai enterrar a madeira rachada!
E assim as bocas falavam. Bocas de curiosos, bocas de espírito de porco e até mesmo bocas avermelhadas e carnudas, loucas para dar um pega legal no carinha da hora. Marcão chegou bem na beira da água, repousou a prancha - que pra muitos já era da idade da pedra - e sentou-se confortavelmente. Alongou-se, como qualquer atleta safo. O mar estava gigante - qualquer imagem perto do fim do mundo era pinto – e ele olhou para trás, cabreiro e viu a moçada, geral, com os olhos arregalados e os lábios mordidos. Não tinha mais volta. Ou ele domava os vagalhões impossíveis, ou então, passaria o resto de seus dias com os dedos dos outros enfurnados em sua cara. Molhou os pés – cautelosamente – e sentiu uma leve tapa da brisa que vinha do mar. Arrepiou até o último fio do cabelo. Nenhum surfista havia conseguido entrar, pegar uma onda inteira e voltar para praia – como disse antes, eles eram arremessados como cuspe desengonçado que vara sem destino pelo ar – ninguém conseguia finalizar uma onda. O mar decididamente não estava para peixes – o que dirá pra surfistas calhordas – mas o Marcão era o cara. Ele tinha o gérmen da insanidade correndo enlouquecidamente pelas suas veias. Para ele não tinha tempo ruim. O povo na areia não parava de comentar.
- ele não vai conseguir...
- tá fudido! Chama logo a emergência!
Ele percebeu o burburinho. Estava mais do que decidido. Enfiou o estrepe no pé direito, caminhou em direção à água e caiu de cara no mar nervoso. Por alguns instantes, desapareceu. Ninguém entendeu nada. Era só espuma e pancadas violentas na arrebentação. O silêncio imperou – eu vi gente chorando, pode acreditar, eu tava lá – e sem que ninguém percebesse, depois da última série avassaladora, o Marconha despencou de 90 pés enfurecidos – são 30 metros maluco! – e veio cheio de marra, berrando a música do Michel Teló, com os braços abertos como no Titanic, cortando todas as possibilidades de erros, entubando radicalmente, chegando bem na beirinha e saltando da prancha como se fosse brincadeira de criança. Na areia o povo urrava de felicidade, mas sua saída do mar foi em silêncio, estufada de moral. Ele cavou um buraco, enterrou sua prancha, fez uma rápida oração – despedida - e caminhou para o estacionamento. Entrou no fusquinha pelo teto solar e depois de muito amassar as caminhonetes, saiu cantando o pneu. Bateu de frente no cruzamento da Mavericks com a Jaws, em um imenso caminhão de cerveja. Perda total do veículo. Marcão Marconha morreu.

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